AVENIDA BEM-TE-VI
Pitanga.
Assim, os tupis-guaranis chamavam o Bem-Te-Vi.
--- Mas, como pode ser Pitanga um passarinho que se diz Bem-Te-Vi com a própria língua?
Os portugueses achavam que era mais uma esquisitice daquela gente estranha, que encontraram ao se perderem do caminho das Índias.
--- Ora, pois, se ele canta que é Bem-Te-Vi, Bem-Te-Vi é, dizem até hoje.
É o passarinho que canta primeiro antes que se abram as padarias.
--- Bem-Te-Vi!
O passarinho mais conhecido do Brasil.
Passarinho que vê tudo.
1.
Ela escolhia um tênis de alta performance numa loja. Não era para o marido, mas para o seu personal training, que tinha umas pernas duas vezes mais roliças. O marido, alto executivo, não via nada além de si mesmo. Mas o passarinho, ah, o passarinho:
--- Bem-Te-Vi!!!
E ela deixou depressa a loja, sem comprar, sem agradecer, sem se despedir da vendedora, como só as mulheres de altos executivos costumam fazer.
Ele escolhia um sapato com estampas de oncinha em outra loja. Não era para a mulher, mas para a sua secretária, que tinha umas pernas duas vezes mais roliças. A mulher, como toda mulher de alto executivo, não via nada além de si mesma. Mas, o passarinho, ah, o passarinho:
--- Bem-Te-Vi!!!
E ele saiu depressa da loja sem comprar, sem agradecer, sem se despedir da vendedora, como só os altos executivos costumam fazer.
2.
Dior, Armani, Moschino, Prada e Chanel. Ela escolhia roupas de grifes internacionais, mas parecia apreensiva, nervosa, afinal estava numa ponta de estoque, numa ruazinha escondida, travessa da Bem-Te-Vi e não queria ser vista por nenhuma amiga. O que iria dizer e que vantagens poderia contar? E então:
--- Bem-Te-Vi!
Era o passarinho que vê tudo. E a amiga que passava de carro casualmente por ali também viu e acenou e o passarinho voou.
3.
Consultório de um analista, na Bem-Te-Vi:
--- Eu preciso de uma terapia, doutor.
--- Por que?
--- Minha vida sexual está um lixo.
--- Quantos anos você tem, meu caro?
--- Cinqüenta e três.
--- Casado?
--- Há vinte e sete anos.
--- E ela, quantos anos?
--- Quarenta e seis.
--- E qual o problema?
--- Eu só faço sexo de dia.
--- Meu caro, sexo não tem hora, portanto não vejo problema nenhum.
--- É que eu não consigo mais.
--- E à noite?
--- Doutor, eu troquei a noite pelo dia faz tempo.
--- Por favor, explique.
--- É que minha mulher estudou em colégio de freiras e o senhor sabe como é colégio de freiras.Ela nunca se deitou antes de rezar em voz alta, ajoelhada à beira da cama. E todas as vezes em que acontecia alguma coisa depois, eu me sentia muito mal, até que não suportei mais a culpa de ser um demônio invadindo um convento. Troquei a noite pelo dia.
--- E qual o problema de dia?
--- Eu me sinto observado. Uma incômoda sensação de estar sendo observado. Confesso que estou à beira de um colapso nervoso.
--- É uma paranóia? Você está imaginando coisas?
--- Não estou imaginando nada, doutor. Acontece que toda vez que estou a fim, o passarinho canta.
--- Mas, isso é ótimo.
--- Estou falando do Bem-Te-Vi, doutor. Quando ele canta, eu me inibo, me encolho, me sinto vigiado como nos meus tempos de coroinha.
--- Coroinha? Você ajudava na Missa?
--- Sim. E tudo ia bem até que cheguei à adolescência. Ah, então todos os santos e anjos viraram bem-te-vis e me vigiavam onde quer que fosse. Quando eu caía em tentação, era mais de um bem-te-vi que cantava, eram todos os santos e anjos:
--- Bem-Te-Vi! E agora, nos meus cinqüenta anos, os complexos de culpa me infernizam novamente.
--- Vamos à realidade, meu caro. Lembre-se que é só um passarinho cantando. Lembre-se disso e tudo volta ao normal.
--- Não volta, não, doutor. A minha mulher deve ter desconfiado do meu problema e vive a repetir que a coisa que ela mais gosta de ouvir é o canto do Bem-Te-Vi.
Bem-Te-Vi.
Passarinho que vê tudo.
4.
Ele sempre passou muito bem acompanhado pelos bares e cafés de Moema. E sempre foi embora sem pagar a conta.Agora, estava numa mesinha na calçada da Bem-Te-Vi, à sombra das árvores, soberano em sua impunidade, carinhoso com a mulher a seu lado. Não era conhecido ali. Pediu café expresso para dois, caprichado. Café nada tem a ver com pastel assado de espinafre, mas ele também pediu, para dois, caprichado. E ficaram a contemplar as vitrines em frente, sem pressa de ir embora. Então, ele foi até o balcão, sorriu para a moça que estava no caixa, simulou pagar a conta, deu um tempo, voltou para a mesa e estendeu as mãos carinhosamente. A mulher se ergueu e de mãos dadas saíram, tranqüila e amorosamente. Então, o passarinho cantou:
--- Bem-Te-Vi!
Ele parou assustado. O segurança, que há pouco o recebera com um sorriso duas vezes maior que o dele, agora o abordava, com uma cara duas vezes mais fechada:
--- O senhor não pagou a conta.
Adivinhe quem pagou?
Bem-Te-Vi!
5.
Ela jamais havia mexido na carteira do marido em quarenta anos de casamento.
Mas, a tentação daquela malha de Campos de Jordão em oferta numa loja da Bem-Te-Vi, ah, que tentação.
O marido, como sempre, saíra devagarzinho em direção do Parque Ibirapuera. Ia e vinha, todas as manhãs.
A carteira estava ali à beira da cama. Estufada.
Suas mãos tremiam, nervosas, quando a apanhou.
Havia dinheiro para comprar quantas malhas quisesse.
Mas, bastava uma nota só. Ela se benzeu, pediu perdão à Nossa Senhora Aparecida, pediu mais de uma vez, muitas vezes, e começou a puxar lentamente a nota da carteira.
E então:
--- Bem-Te-Vi! Bem-Te-Vi!
Ela caiu sentada na cama. Pálida.
O marido desistira de ir ao Ibirapuera e imitava o canto do Bem-Te-Vi, a seu lado.
--- Bem-Te-Vi!
Imitava e ria, achara engraçada e inocente a reação de sua mulher ao ser surpreendida.
Ela começou a rir, também, e os dois se abraçaram amorosamente.
À tarde, foram comprar a malha.
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