Os tupis-guaranis chamavam o Bem-Te-Vi de Pitanga.
--- Raios! Como pode ser Pitanga se o próprio passarinho fica por aí a cantar que é Bem-Te-Vi?
Para os portugueses que descobriram o Brasil, chamar Bem-Te-Vi de Pitanga era mais uma esquisitice daquela gente de língua tão estranha, gente que nem sabia informar sobre o Caminho das Indias e se soubesse quem é que entenderia a explicação?
--- Ora, pois, se ele canta que é Bem-Te-Vi, Bem-Te-Vi é.
Nas madrugadas de Moema, é o Bem-Te-Vi que canta primeiro, dizem os portugueses que descobriram as padarias.
--- Bem-Te-Vi!
O passarinho mais conhecido do Brasil.
Passarinho que vê tudo.
Bem-Te-Vi!
1.
Ela escolhia um tênis de alta performance numa loja. Não era para o marido, mas para o seu personal training, que pelo tamanho dos pés deveria ser superdotado no resto e com umas pernas duas vezes mais roliças.
O marido, alto executivo, não percebia nada além de si mesmo. Mas o passarinho, ah, o passarinho:
--- Bem-Te-Vi!!!
E ela, assustada, deixou depressa a loja, sem comprar, sem agradecer, sem se despedir da vendedora, como só as mulheres de altos executivos costumam fazer.
Ele escolhia um sapato com estampas de oncinha em outra loja. Não era para a mulher, mas para a sua secretária, que tinha pezinhos de gueixa e pernas duas vezes mais novas.
A mulher, como toda mulher de alto executivo, não percebia nada além de si mesma. Mas, o passarinho, ah, o passarinho:
--- Bem-Te-Vi!!!
E ele saiu depressa da loja sem comprar, sem agradecer, sem se despedir da vendedora, como só os altos executivos costumam fazer.
2.
Dior, Armani, Moschino, Prada e Chanel.
Ela escolhia roupas de grifes internacionais, mas parecia apreensiva, nervosa, afinal estava numa ponta de estoque, numa ruazinha escondida, travessa da Bem-Te-Vi e não queria ser vista por nenhuma amiga. O que iria dizer e que vantagens poderia contar depois? E então:
--- Bem-Te-Vi!
Era o passarinho que vê tudo. E a amiga que passava de carro casualmente por ali também viu e acenou e o passarinho voou.
3.
Consultório de um analista, na Bem-Te-Vi:
--- Eu preciso de uma terapia, doutor.
--- Por que?
--- Minha vida sexual está um lixo.
--- Quantos anos você tem, meu caro?
--- Cinqüenta e três.
--- Casado?
--- Há vinte e sete anos.
--- E ela, quantos anos?
--- Quarenta e seis.
--- E qual o problema?
--- Eu só faço sexo de dia.
--- Meu caro, sexo não tem hora, portanto não vejo problema nenhum.
--- É que eu não consigo mais.
--- E à noite?
--- Doutor, eu troquei a noite pelo dia faz tempo.
--- Por favor, explique.
--- É que minha mulher estudou em colégio de freiras e o senhor sabe como é colégio de freiras.Ela nunca se deitou antes de rezar em voz alta, ajoelhada à beira da cama. E todas as vezes em que acontecia alguma coisa depois da reza, eu me sentia muito mal, até que não suportei mais a culpa de ser um demônio invadindo um convento. Troquei a noite pelo dia.
--- E qual o problema de dia?
--- Eu me sinto observado. Uma incômoda sensação de estar sendo observado. Confesso que estou à beira de um colapso nervoso.
--- É uma paranóia? Você está imaginando coisas?
--- Não estou imaginando nada, doutor. Acontece que toda vez que estou a fim, o passarinho canta.
--- Mas, isso é ótimo.
--- Estou falando do Bem-Te-Vi, doutor. Quando ele canta, eu me inibo, me encolho, me sinto vigiado como nos meus tempos de coroinha.
--- Coroinha? Você ajudava na Missa?
--- Sim. E tudo ia bem até que cheguei à adolescência. Ah, então todos os santos e anjos viraram bem-te-vis e me vigiavam onde quer que fosse. Quando eu caía em tentação, era mais de um bem-te-vi que cantava, eram todos os santos e anjos: Bem-Te-Vi! E agora, nos meus cinqüenta anos, os complexos de culpa me infernizam novamente e minha ereção despenca.
--- Vamos à realidade, meu caro. Lembre-se que é só um passarinho cantando. Lembre-se disso e tudo volta ao normal.
--- Não volta, não, doutor. A minha mulher deve ter desconfiado do meu problema e vive a repetir que a coisa que ela mais gosta de ouvir é o canto do Bem-Te-Vi.
Bem-Te-Vi.
Passarinho que vê tudo.
4.
Ele sempre passou muito bem acompanhado pelos bares e cafés de Moema. E sempre foi embora sem pagar a conta.Agora, estava numa mesinha na calçada da Bem-Te-Vi, à sombra das árvores, soberano em sua impunidade, carinhoso com a mulher a seu lado. Não era conhecido ali. Pediu café expresso para dois, caprichado. Café nada tem a ver com pastel assado de espinafre, mas ele também pediu, para dois, caprichado. E ficaram a contemplar as vitrines em frente, sem pressa de ir embora. Então, ele foi até o balcão, sorriu para a moça que estava no caixa, simulou pagar a conta, deu um tempo, voltou para a mesa e estendeu as mãos carinhosamente. A mulher se ergueu e de mãos dadas saíram, tranqüila e amorosamente. Então, o passarinho cantou:
--- Bem-Te-Vi!
Ele parou assustado. O segurança, que há pouco o recebera com um sorriso duas vezes maior que o dele, agora o abordava, com uma cara duas vezes mais fechada:
--- O senhor não pagou a conta.
Adivinhe quem pagou?
Bem-Te-Vi!
5.
Ela jamais havia mexido na carteira do marido em quarenta anos de casamento.
Mas, a tentação daquela malha de Campos de Jordão em oferta numa loja da Bem-Te-Vi, ah, que tentação.
O marido, como sempre, saíra devagarzinho em direção do Parque Ibirapuera. Ia e vinha, todas as manhãs.
A carteira estava ali à beira da cama. Estufada.
Suas mãos tremiam, nervosas, quando a apanhou.
Havia dinheiro para comprar quantas malhas quisesse.
Mas, bastava uma malha só. Ela se benzeu, pediu perdão à Nossa Senhora Aparecida, pediu mais de uma vez, muitas vezes, e começou a puxar lentamente o dinheiro da carteira.
E então:
--- Bem-Te-Vi! Bem-Te-Vi!
Ela caiu sentada na cama. Pálida.
O marido desistira de ir ao Ibirapuera e imitava o canto do Bem-Te-Vi, a seu lado.
--- Bem-Te-Vi!
Imitava e ria, achara engraçada e inocente a reação de sua mulher ao ser surpreendida.
Ela começou a rir junto com ele e os dois se abraçaram amorosamente.
À tarde, foram comprar a malha.
Bem-Te-Vi.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
AS VIÚVAS DE MOEMA
De Miguel Arcanjo Terra
Personagens:
Glorinha
O Marido de Glorinha
Oito viúvas
Primeiro Ato
(Cenário 1: O marido de Glorinha fala com um amigo ao celular. Nervoso, com gestos exagerados, ele vai e vem de um canto a outro da sala, sem parar de falar.)
--- Meu velho, não sei o que fazer!!!!!!!!
Desculpe as exclamações.
São exatamente oito exclamações diante de oito viúvas alegres, alegríssimas.
Hen? Como? Você me pergunta qual é o problema?
O problema, meu velho, é que essas más influências estão pervertendo minha mulher. Que mulher? A Glorinha, quem poderia ser!
(pausa)
--- Claro que a Glorinha não é viuva! Você sabe muito bem que ela só se casou uma vez e foi comigo. E se estou falando com você é porque ainda estou vivo. Mas, todas querem que eu morra e que minha mulher se junte a elas como a mais nova viúva da turma.
(pausa)
--- Não ria, não ria. Hen? O que foi que você disse? A Glorinha, na cotação do mercado, seria uma viúva semi-nova???. Ah, não, sem gozação, meu velho. A verdade é que estou apavorado. Sinto no ar uma conspiração contra mim. Querem me ver num caixão de defunto. Mortinho!
(Cenário 2: Nove mulheres à mesa jogam cartas. Uma delas é a Glorinha. O incenso fumega num canto da sala. Elas falam de maneira incompreensível. A ordem das palavras e das sílabas em cada frase vêm do fim para o começo, ao contrário. São bruxas a confabular, na imaginação do marido de Glorinha, que espia atrás da cortina. Fala uma das mulheres)
--- Avvi rehlum da dedacilife a é otrom odiram.
(Todas riem.)
(Marido de Glorinha, ao telefone, ainda atrás das cortinas)
--- Você ouviu, você ouviu? Ela acabou de dizer que marido morto é a felicidade de mulher viúva.
(As mulheres continuam a falar de modo estranho e a jogar)
--- Laveno da metno de lotupica o viu cevo?
--- emfo moc uotse!
--- mebmat ue!
--- azzip amu ridep lat ueq!!!
Todas comemoram
--- Abo! Abo!!!
(Cenário 1: Marido de Glorinha continua ao telefone)
--- Ai, meu Deus, a morte é rija. Eu nunca vi nem soube de defunto mole! O que? O biláu??? Pelo amor de Deus... Que catso de amigo é você? Estou aqui na maior angústia e você fica fazendo gracinha??? Estou assustado, meu velho. E flores murchas me enjoam.
Maldito seja quem criou coroas de flores para defunto.
Maldito seja esse imbecil já devidamente falecido.
Não, não!
Não se trata de paranóia. Pare com isso! Estou na real, meu velho! Acabei de ouvir agorinha mesmo! Elas querem acabar comigo!
Sabe por que?
Eu sou o único, só eu, o único e último marido vivo. E isso atrapalha os planos em que incluem minha mulher. Para elas, marido morto é melhor. Devem ser planos rebolantes, mirabolantes, uma armação perfeita para grandes sacanagens, não importa se em Paris ou num Hotel Fazenda de Lindóia ou Piracicaba.
Não, não! Não pirei, não senhor! Estou perfeitamente lúcido e precavido como um marido ainda vivo.
Ai, meu Deus, não sei se ainda confio na Glorinha.
Eu sempre confiei mais na Glorinha quando confiava mais em mim.
Mas, comecei a me sentir inseguro quando inventaram essa faixa dos que só transam em terceira e se passarem para a quarta morrem.
Estou falando de terceira idade, meu velho!
(pausa)
Malditas ONGS, malditos políticos demagogos, malditos publicitários e jornalistas! Todos transformaram maridos vivos como eu numa coisa de terceira. E eu já fui de primeira, meu velho, você sabe muito bem que eu fui de primeira. Fui, não! Ainda sou! Mas quem é que acredita? Os de primeira como eu estão quase todos mortos por essa propaganda nojenta da Terceira Idade. E os que parecem vivos já morreram faz tempo nas filas dos supermercados. Viraram fantasmas do dia à caça das ofertas do dia.
O que? Imagina! Nunca! Não estou nessa, não estou nessa, não entro em fila preferencial. Mas, as malditas viúvas estão fazendo a cabeça de minha mulher de que sou tão descartável como um saquinho de supermercado. Mas, meu saco ainda é roxo e ecologiamente correto.
Sem os maridos, essas malditas viúvas descobriram que se a vida de casada era boa, a vida de viúva é melhor. Ah, claro! Descobriram tudo isso com a pensão ou herança que deixaram os falecidos. Agora, elas querem que eu morra! Já percebo em minha mulher um olhar assim de missa de sétimo dia.
(Volta Cenário 2: As nove mulheres conitinuam a jogar cartas e falar ao contrário, muito alegres)
Segundo Ato
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone, agitadíssimo)
--- Minha idade? Claro que você sabe minha idade! Ou você está com o mal de Alzeimer, meu velho?
(pausa)
--- Estou na faixa de idade do Gil, Caetano, Chico Buarque, Pelé, Zé Celso Martinez, Paulinho da Viola, Dominguinhos, Erasmo, Roberto Carlos, Djavan, Milton Nascimento, Mick Jagger, Rod Stewart, David Bowie, Ney Matogrosso...Hen, hen??? Quem foi que morreu???
(pausa)
--- Puta que pariu!
(pausa)
--- Minha mulher? Ela é uma Betânia... Não, não... Betânia, não... Ela é uma Gal. Gal de rosto, com fachada de Fafá de Belém.
Mas, as mulheres de nossa geração não entram na faixa dos descartáveis. Os homens, sim. Como um objeto. Homem-Objeto de Terceira... Terceira Idade, é isso mesmo!
Malditos publicitários que nos enfaixaram assim. Eu sou um enfaixado pela minha faixa etária. Você também.
Detesto jogo de palavras, você sabe disso, principalmente dos publicitários. Eles ficam brincando e enfaixando a gente pela idade: Prosperidade, Melhoridade, Fraternidade. Tudo tem idade, tudo imbecilidade, barbaridade que me faz sentir muitas vezes fora do meu destino de ser simplesmente gente, não uma espécie em extinção e protegida como um Mico-Leão Dourado, que é outro bom passatempo de publicitários desocupados.
(O marido de Glorinha grita exasperado)
--- Eu não sou um Mico-Leão Dourado!!! Eu não vou pagar o Mico!!!
(pausa)
--- Ah, então você acha que em Moema não existe mais ninguém assim como a gente??? Só altos executivos bem sucedidos? Mas, nós também não fomos altos executivos bem sucedidos? Claro que fomos. E são muitos no bairro assim como nós. Pode conferir: atrás de um cachorro sempre vem um ex-alto executivo bem sucedido. Mas, se atrás do cachorro vier uma mulher, sozinha, ah, pode ter certeza: é mais uma viúva alegre de um ex-alto executivo bem sucedido.
(Cenário 2: As nove mulheres continuam a falar palavras e frases ao contrário. As oito viúvas agora estão em volta de Glorinha, afagam seus cabelos, procuram animá-la e ela, sorrindo timidamente, balança a cabeça, fazendo que não. Fecha)
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)
--- Não é loucura minha, não. As viúvas de Moema estão soltas por aí. Onde? Meu Deus, você continua o alienadão de sempre, distraído das coisas e do mundo. Passe à tarde nos cafés de Moema, passe! Elas estarão à mesa em grupinhos de quatro ou cinco.
Como saber se elas são viúvas?
Pelo Botox.
Botox de viúva é diferente. Os olhos ficam mais arregalados e a boca deixa a impressão de que a mulher está assobiando baixinho.
Quer outra dica?
Algumas gostam de andar em Moema com dois cachorros: o dela e o do marido morto. É fácil descobrir qual é o do marido morto: é o cachorro mais triste.
Graças a Deus que eu não tenho cachorro, esse gostinho não vou dar à minha mulher quando ela ficar viúva.
Na verdade, essa conspiração das viúvas contra maridos vivos me assusta muito. As mulheres são mais solidárias que os homens e se duas ficam viúvas, a terceira começa a pensar e agir como se não existisse mais marido na sua vida e ele é simplesmente desprogramado no dia a dia e também nos sábados, domingos e feriados.
Meu velho, marido é uma das coisas mais obsoletas destes tempos. Principalmente marido de terceira... Terceira idade, meu velho! É do que estou falando. Não, não... Não me venha dizer que você é diferente só porque casou duas vezes. É muito pior o seu caso. Eu diria que é de alto risco.
Quantos anos tem sua mulher? Olha só! A metade de sua idade. Isso é risco em dobro, ai que medo. É viúva que nem precisa gastar sua pensão em botox e afins para se exibir à tarde nos cafés e no shopping, onde garanhões desocupados sempre circulam a exibir bíceps e bundas arredondadas por anabolizantes.
(pausa)
Não sei por que as mulheres admiram bundas de homem. Você sabe dizer por que? Fico perplexo e até complexado, porque na parte dos fundos eu sou um imenso vazio. Hen? Na parte da frente? Bem, aí eu diria que sou mais ou menos, mais pra menos do que pra mais. Quero dizer que não estou com essa bola toda.
Terceiro Ato
(Cenário 2: As nove mulheres --- as oito viúvas e Glorinha --- agora cantam em uníssono Explode Coração, uma composição de Gonzaguinha, mas com palavras e frases ao contrário, como a música de trás para a frente. Marido de Glória as espia atrás da cortina).
Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar e eu não quero mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar
Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar
E se perder e se achar e tudo aquilo que é viver
Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim
Como se fosse o sol desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor desta manhã
Nascendo, rompendo, tomando, rasgando meu corpo e então eu
Chorando, gostando, sofrendo, adorando, gritando
Feito louca, alucinada e criança
Eu quero o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar explode coração.
Fecha.}
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)
--- Você não sabe da maior, meu velho. Uma dia destes dei uma de Sherlock Holmes. Segui minha mulher e a vi entrando numa bela casa na avenida Eucaliptos. Ela e as viúvas. Eureca!!! Bingo!!! Passei a tarde de campana, até que ela e as viúvas deixaram a casa e cada uma seguiu seu rumo. O caseiro, um velhinho de jeito muito bom, ficou no portão até que todas se fossem. É com ele que eu vou saber das coisas, pensei comigo. Cheguei antes que ele fechasse o portão. Boa tarde, boa tarde, fui falando e chegando. Minha irmã já foi? Menti: minha irmã é a dona Glorinha. Ela ficou viúva. Pobres viúvas.
Mas, a dona Glorinha não é viúva, ele respondeu.
Mas está querendo ficar, retruquei. O senhor, não ouviu por acaso a conversa dela com as amigas?
Aqui, eu só ouço a reza delas, ele respondeu. Todas vêm rezar pelos falecidos. Só na hora do chá é que falam outras coisas. Mas eu não sou de ficar ouvindo, que não é coisa de bem para um homem da minha idade. O que eu posso dizer é que na hora da reza, desce o espírito de um marido falecido, sempre desce, e vem bravo. Então, as donas acalmam o coitado e dizem que está tudo bem e que o mundo está mudando muito, por isso que é preciso se enfeitar, mudar a cara também, porque mulher que passa dos sessenta, passa e não volta e não adianta passar mais nada. E o mundo não aceita mulher mal passada. Aí todas pedem luz para o falecido, rezam e então o espírito descansa em paz. É assim.
(Cenário 2: As nove mulheres --- as oito viúvas e Glorinha --- continuam a cantar em uníssono Explode Coração.
...Nascendo, rompendo, tomando, rasgando meu corpo e então eu
Chorando, gostando, sofrendo, adorando, gritando
Feito louca, alucinada e criança
Eu quero o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar explode coração.)
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)
--- Você quer saber seu conheço bem as viúvas amigas de minha mulher?
Não muito.
Algumas eu vi pela primeira vez nos tempos de moça.
Agora nenhuma delas confere mais com o original.
As bundas e os seios ou murcharam ou ficaram moles ou se enrijeceram com silicone.
Hen? Eu estou sendo cruel? Você quer saber da alma e não do corpo?
Mas, qual é o homem que conhece a alma de uma mulher?
Mulher a gente define pelo corpo, meu velho.
No homem, é a alma que faz o corpo. Na mulher, é o corpo que faz a alma. Exatamente por isso, mulher quando ainda é bonita procura homem e nem liga pra Deus. Mas, quando fica velha e feia, ahhh... Por que as igrejas ficam cheias de velhinhas? Por que? Diga! Com a feiúra do corpo a alma entra no lugar querendo ser a mais bonita diante de Deus.
Ai, que não vejo a hora de minha mulher ficar bem velhinha, muito mais alma que corpo, e eu, velhinho também, caminhar a seu lado, bem devagarzinho, para o mundo não acabar depressa. Mas, ela e suas amigas estão naquela idade em que a saudade é sempre de alguma coisa que ainda se pode pegar. E esse é o ponto crítico da vida, porque é uma linha muito tênue que nos separa do absurdo e do ridículo.
(Cenário 2: As nove mulheres --- as oito viúvas e Glorinha --- mexem coisas num grande caldeirão, como se fosse um ritual de bruxas, enquanto continuam a cantar Explode Coração.)
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)
--- Você não sabe o que aconteceu meu velho amigo. Anteontem à noite, minha mulher me surpreendeu com um convite.
Querido, você gosta de paella? Ela sabe que eu adoro paella.
Minhas amigas --- ela continuou ---estão preparando uma paella para um jantar muito especial e você é o único homem convidado.
Como eu poderia ficar feliz com o convite?
É minha morte. Não é paranóia, não.
Basta jogar uma porção de arsênico e pronto.
Quem é que vai descobrir arsênico no meio daquelas coisas da paella? Arroz, açafrão, pimentão, carne, camarão, polvo, lula, mexilhão. Causa mortis: intoxicação alimentar. Você sabe que o arsênico mata como se fosse uma doença e é difícil diagnosticar envenenamento. O cara fica cansado, letárgico, deprimido. Vem diarréia, enjôo, perda de peso, de cabelos, tudo para o medico diagnosticar tudo, menos envenenamento. Então, chega a morte. Assim de mansinho.
Estou tão chateado com tudo isso que acho que vou aceitar o convite para morrer.
Tratamento, eu? Um psiquiatra? Você precisa muito mais, meu velho. Quem é que fica sublimando tudo? O pior cego é aquele que não quer ver. Eu estou na real, você não, ainda parece aquele mesmo adolescente que escrevia versinhos para as mulheres do La Licorne, elas que gostavam mais de ler notas de dólar.
Quer saber? Vou ao jantar. E que seja o belo jantar da minha morte.
Haverá velas brancas e amarelas acesas em castiçais próximos da mesa. Nada a ver com paella. Muito a ver com minha morte.
As velas vão me piscar do além e me lamber de longe e eu não vou me importar. Morrerei depois da paella com toda a minha dignidade e plena certeza de que tudo valeu a pena mesmo com minha alma pequena. Ai, que frase horrivel!
Nos brindes antes do jantar, taças com Abadal Cabernet serão erguidas e a dona da casa pedirá a palavra.
Respirarei fundo para não extravasar minha raiva diante daquele sorriso que será um traço sutil de descaramento e cinismo. Sorrirei, também. Mas, na verdade eu já estarei meio morto de ódio. Malditaaassss!!!
(Cenário 3: Mesa de jantar magnificamente arrumada para o jantar. Ele, sentado à cabeceira da mesa, como convidado especial, olha desconfiado e um pouco assustado para a mulher e as amigas, todas com roupas elegantes. A anfitriã se ergue e inicia um discurso.)
Anfitriã: A razão deste jantar é que estamos preocupadas com você, muito preocupadas mesmo. Você sabe muito bem que o cigarro mata!
Marido: Arsênico, também.
Anfitriã: Como???
Marido: Esquece...
Anfitriã: Queremos que você deixe o cigarro e viva mais. Cinco de nós perderam o marido para o cigarro. Cinco. Só uma acha que não foi o cigarro.
Uma das víuvas interfere: Conta pra ele, conta...
Anfitriã: Bem... A secretária levou a culpa... Mas, aquele cigarro depois é que provocou o enfarte. Tinha até buraco no colchão. Meu falecido marido viu as fotos da Polícia, as fotos estavam junto com a calcinha que a secretária esqueceu na fuga desesperada do motel.
Marido: (ri nervosamente, um riso sem nexo).
Anfitriã: Peço licença à minha grande amiga Glorinha para dizer que você é neste momento o único homem de nossas vidas.
Glorinha (emocionada): O único homem...
Anfitriã: Por favor, pare de fumar.
Todas as mulheres em coro: Páre, Páre, Páre!!!
(As mulheres erguem-se ao mesmo e correm até ele para um grande abraço.
Fecham-se as cortinas. Logo depois, ele sai detrás das cortinas, num canto do palco, falando ao celular)
--- A maior paella, meu amigo... O vinho? Nem te conto... Eu sou o único homem num jantar de mulheres, perdido entre beijos e abraços. Estou me sentindo um sultão de Bagdá e se a Glorinha bobear vou ficar com todas ... Falta de ar? Que falta de ar, velho? Estou com o fôlego todo...Enfim, meu amigo, se nos próximos dias você por acaso reparar numa mesa de café com um homem cercado de mulheres por todos os lados, e se a soma das idades dessas mulheres der um total aproximado de uns seiscentos anos, pode ter certeza: o homem sou eu. Claro que não vou estar fumando. Desculpe, desculpe, mas eu tenho que voltar à mesa... Tcháuuu!!!! (despede-se também da platéia e volta para trás das cortinas)
FIM
Personagens:
Glorinha
O Marido de Glorinha
Oito viúvas
Primeiro Ato
(Cenário 1: O marido de Glorinha fala com um amigo ao celular. Nervoso, com gestos exagerados, ele vai e vem de um canto a outro da sala, sem parar de falar.)
--- Meu velho, não sei o que fazer!!!!!!!!
Desculpe as exclamações.
São exatamente oito exclamações diante de oito viúvas alegres, alegríssimas.
Hen? Como? Você me pergunta qual é o problema?
O problema, meu velho, é que essas más influências estão pervertendo minha mulher. Que mulher? A Glorinha, quem poderia ser!
(pausa)
--- Claro que a Glorinha não é viuva! Você sabe muito bem que ela só se casou uma vez e foi comigo. E se estou falando com você é porque ainda estou vivo. Mas, todas querem que eu morra e que minha mulher se junte a elas como a mais nova viúva da turma.
(pausa)
--- Não ria, não ria. Hen? O que foi que você disse? A Glorinha, na cotação do mercado, seria uma viúva semi-nova???. Ah, não, sem gozação, meu velho. A verdade é que estou apavorado. Sinto no ar uma conspiração contra mim. Querem me ver num caixão de defunto. Mortinho!
(Cenário 2: Nove mulheres à mesa jogam cartas. Uma delas é a Glorinha. O incenso fumega num canto da sala. Elas falam de maneira incompreensível. A ordem das palavras e das sílabas em cada frase vêm do fim para o começo, ao contrário. São bruxas a confabular, na imaginação do marido de Glorinha, que espia atrás da cortina. Fala uma das mulheres)
--- Avvi rehlum da dedacilife a é otrom odiram.
(Todas riem.)
(Marido de Glorinha, ao telefone, ainda atrás das cortinas)
--- Você ouviu, você ouviu? Ela acabou de dizer que marido morto é a felicidade de mulher viúva.
(As mulheres continuam a falar de modo estranho e a jogar)
--- Laveno da metno de lotupica o viu cevo?
--- emfo moc uotse!
--- mebmat ue!
--- azzip amu ridep lat ueq!!!
Todas comemoram
--- Abo! Abo!!!
(Cenário 1: Marido de Glorinha continua ao telefone)
--- Ai, meu Deus, a morte é rija. Eu nunca vi nem soube de defunto mole! O que? O biláu??? Pelo amor de Deus... Que catso de amigo é você? Estou aqui na maior angústia e você fica fazendo gracinha??? Estou assustado, meu velho. E flores murchas me enjoam.
Maldito seja quem criou coroas de flores para defunto.
Maldito seja esse imbecil já devidamente falecido.
Não, não!
Não se trata de paranóia. Pare com isso! Estou na real, meu velho! Acabei de ouvir agorinha mesmo! Elas querem acabar comigo!
Sabe por que?
Eu sou o único, só eu, o único e último marido vivo. E isso atrapalha os planos em que incluem minha mulher. Para elas, marido morto é melhor. Devem ser planos rebolantes, mirabolantes, uma armação perfeita para grandes sacanagens, não importa se em Paris ou num Hotel Fazenda de Lindóia ou Piracicaba.
Não, não! Não pirei, não senhor! Estou perfeitamente lúcido e precavido como um marido ainda vivo.
Ai, meu Deus, não sei se ainda confio na Glorinha.
Eu sempre confiei mais na Glorinha quando confiava mais em mim.
Mas, comecei a me sentir inseguro quando inventaram essa faixa dos que só transam em terceira e se passarem para a quarta morrem.
Estou falando de terceira idade, meu velho!
(pausa)
Malditas ONGS, malditos políticos demagogos, malditos publicitários e jornalistas! Todos transformaram maridos vivos como eu numa coisa de terceira. E eu já fui de primeira, meu velho, você sabe muito bem que eu fui de primeira. Fui, não! Ainda sou! Mas quem é que acredita? Os de primeira como eu estão quase todos mortos por essa propaganda nojenta da Terceira Idade. E os que parecem vivos já morreram faz tempo nas filas dos supermercados. Viraram fantasmas do dia à caça das ofertas do dia.
O que? Imagina! Nunca! Não estou nessa, não estou nessa, não entro em fila preferencial. Mas, as malditas viúvas estão fazendo a cabeça de minha mulher de que sou tão descartável como um saquinho de supermercado. Mas, meu saco ainda é roxo e ecologiamente correto.
Sem os maridos, essas malditas viúvas descobriram que se a vida de casada era boa, a vida de viúva é melhor. Ah, claro! Descobriram tudo isso com a pensão ou herança que deixaram os falecidos. Agora, elas querem que eu morra! Já percebo em minha mulher um olhar assim de missa de sétimo dia.
(Volta Cenário 2: As nove mulheres conitinuam a jogar cartas e falar ao contrário, muito alegres)
Segundo Ato
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone, agitadíssimo)
--- Minha idade? Claro que você sabe minha idade! Ou você está com o mal de Alzeimer, meu velho?
(pausa)
--- Estou na faixa de idade do Gil, Caetano, Chico Buarque, Pelé, Zé Celso Martinez, Paulinho da Viola, Dominguinhos, Erasmo, Roberto Carlos, Djavan, Milton Nascimento, Mick Jagger, Rod Stewart, David Bowie, Ney Matogrosso...Hen, hen??? Quem foi que morreu???
(pausa)
--- Puta que pariu!
(pausa)
--- Minha mulher? Ela é uma Betânia... Não, não... Betânia, não... Ela é uma Gal. Gal de rosto, com fachada de Fafá de Belém.
Mas, as mulheres de nossa geração não entram na faixa dos descartáveis. Os homens, sim. Como um objeto. Homem-Objeto de Terceira... Terceira Idade, é isso mesmo!
Malditos publicitários que nos enfaixaram assim. Eu sou um enfaixado pela minha faixa etária. Você também.
Detesto jogo de palavras, você sabe disso, principalmente dos publicitários. Eles ficam brincando e enfaixando a gente pela idade: Prosperidade, Melhoridade, Fraternidade. Tudo tem idade, tudo imbecilidade, barbaridade que me faz sentir muitas vezes fora do meu destino de ser simplesmente gente, não uma espécie em extinção e protegida como um Mico-Leão Dourado, que é outro bom passatempo de publicitários desocupados.
(O marido de Glorinha grita exasperado)
--- Eu não sou um Mico-Leão Dourado!!! Eu não vou pagar o Mico!!!
(pausa)
--- Ah, então você acha que em Moema não existe mais ninguém assim como a gente??? Só altos executivos bem sucedidos? Mas, nós também não fomos altos executivos bem sucedidos? Claro que fomos. E são muitos no bairro assim como nós. Pode conferir: atrás de um cachorro sempre vem um ex-alto executivo bem sucedido. Mas, se atrás do cachorro vier uma mulher, sozinha, ah, pode ter certeza: é mais uma viúva alegre de um ex-alto executivo bem sucedido.
(Cenário 2: As nove mulheres continuam a falar palavras e frases ao contrário. As oito viúvas agora estão em volta de Glorinha, afagam seus cabelos, procuram animá-la e ela, sorrindo timidamente, balança a cabeça, fazendo que não. Fecha)
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)
--- Não é loucura minha, não. As viúvas de Moema estão soltas por aí. Onde? Meu Deus, você continua o alienadão de sempre, distraído das coisas e do mundo. Passe à tarde nos cafés de Moema, passe! Elas estarão à mesa em grupinhos de quatro ou cinco.
Como saber se elas são viúvas?
Pelo Botox.
Botox de viúva é diferente. Os olhos ficam mais arregalados e a boca deixa a impressão de que a mulher está assobiando baixinho.
Quer outra dica?
Algumas gostam de andar em Moema com dois cachorros: o dela e o do marido morto. É fácil descobrir qual é o do marido morto: é o cachorro mais triste.
Graças a Deus que eu não tenho cachorro, esse gostinho não vou dar à minha mulher quando ela ficar viúva.
Na verdade, essa conspiração das viúvas contra maridos vivos me assusta muito. As mulheres são mais solidárias que os homens e se duas ficam viúvas, a terceira começa a pensar e agir como se não existisse mais marido na sua vida e ele é simplesmente desprogramado no dia a dia e também nos sábados, domingos e feriados.
Meu velho, marido é uma das coisas mais obsoletas destes tempos. Principalmente marido de terceira... Terceira idade, meu velho! É do que estou falando. Não, não... Não me venha dizer que você é diferente só porque casou duas vezes. É muito pior o seu caso. Eu diria que é de alto risco.
Quantos anos tem sua mulher? Olha só! A metade de sua idade. Isso é risco em dobro, ai que medo. É viúva que nem precisa gastar sua pensão em botox e afins para se exibir à tarde nos cafés e no shopping, onde garanhões desocupados sempre circulam a exibir bíceps e bundas arredondadas por anabolizantes.
(pausa)
Não sei por que as mulheres admiram bundas de homem. Você sabe dizer por que? Fico perplexo e até complexado, porque na parte dos fundos eu sou um imenso vazio. Hen? Na parte da frente? Bem, aí eu diria que sou mais ou menos, mais pra menos do que pra mais. Quero dizer que não estou com essa bola toda.
Terceiro Ato
(Cenário 2: As nove mulheres --- as oito viúvas e Glorinha --- agora cantam em uníssono Explode Coração, uma composição de Gonzaguinha, mas com palavras e frases ao contrário, como a música de trás para a frente. Marido de Glória as espia atrás da cortina).
Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar e eu não quero mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar
Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar
E se perder e se achar e tudo aquilo que é viver
Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim
Como se fosse o sol desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor desta manhã
Nascendo, rompendo, tomando, rasgando meu corpo e então eu
Chorando, gostando, sofrendo, adorando, gritando
Feito louca, alucinada e criança
Eu quero o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar explode coração.
Fecha.}
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)
--- Você não sabe da maior, meu velho. Uma dia destes dei uma de Sherlock Holmes. Segui minha mulher e a vi entrando numa bela casa na avenida Eucaliptos. Ela e as viúvas. Eureca!!! Bingo!!! Passei a tarde de campana, até que ela e as viúvas deixaram a casa e cada uma seguiu seu rumo. O caseiro, um velhinho de jeito muito bom, ficou no portão até que todas se fossem. É com ele que eu vou saber das coisas, pensei comigo. Cheguei antes que ele fechasse o portão. Boa tarde, boa tarde, fui falando e chegando. Minha irmã já foi? Menti: minha irmã é a dona Glorinha. Ela ficou viúva. Pobres viúvas.
Mas, a dona Glorinha não é viúva, ele respondeu.
Mas está querendo ficar, retruquei. O senhor, não ouviu por acaso a conversa dela com as amigas?
Aqui, eu só ouço a reza delas, ele respondeu. Todas vêm rezar pelos falecidos. Só na hora do chá é que falam outras coisas. Mas eu não sou de ficar ouvindo, que não é coisa de bem para um homem da minha idade. O que eu posso dizer é que na hora da reza, desce o espírito de um marido falecido, sempre desce, e vem bravo. Então, as donas acalmam o coitado e dizem que está tudo bem e que o mundo está mudando muito, por isso que é preciso se enfeitar, mudar a cara também, porque mulher que passa dos sessenta, passa e não volta e não adianta passar mais nada. E o mundo não aceita mulher mal passada. Aí todas pedem luz para o falecido, rezam e então o espírito descansa em paz. É assim.
(Cenário 2: As nove mulheres --- as oito viúvas e Glorinha --- continuam a cantar em uníssono Explode Coração.
...Nascendo, rompendo, tomando, rasgando meu corpo e então eu
Chorando, gostando, sofrendo, adorando, gritando
Feito louca, alucinada e criança
Eu quero o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar explode coração.)
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)
--- Você quer saber seu conheço bem as viúvas amigas de minha mulher?
Não muito.
Algumas eu vi pela primeira vez nos tempos de moça.
Agora nenhuma delas confere mais com o original.
As bundas e os seios ou murcharam ou ficaram moles ou se enrijeceram com silicone.
Hen? Eu estou sendo cruel? Você quer saber da alma e não do corpo?
Mas, qual é o homem que conhece a alma de uma mulher?
Mulher a gente define pelo corpo, meu velho.
No homem, é a alma que faz o corpo. Na mulher, é o corpo que faz a alma. Exatamente por isso, mulher quando ainda é bonita procura homem e nem liga pra Deus. Mas, quando fica velha e feia, ahhh... Por que as igrejas ficam cheias de velhinhas? Por que? Diga! Com a feiúra do corpo a alma entra no lugar querendo ser a mais bonita diante de Deus.
Ai, que não vejo a hora de minha mulher ficar bem velhinha, muito mais alma que corpo, e eu, velhinho também, caminhar a seu lado, bem devagarzinho, para o mundo não acabar depressa. Mas, ela e suas amigas estão naquela idade em que a saudade é sempre de alguma coisa que ainda se pode pegar. E esse é o ponto crítico da vida, porque é uma linha muito tênue que nos separa do absurdo e do ridículo.
(Cenário 2: As nove mulheres --- as oito viúvas e Glorinha --- mexem coisas num grande caldeirão, como se fosse um ritual de bruxas, enquanto continuam a cantar Explode Coração.)
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)
--- Você não sabe o que aconteceu meu velho amigo. Anteontem à noite, minha mulher me surpreendeu com um convite.
Querido, você gosta de paella? Ela sabe que eu adoro paella.
Minhas amigas --- ela continuou ---estão preparando uma paella para um jantar muito especial e você é o único homem convidado.
Como eu poderia ficar feliz com o convite?
É minha morte. Não é paranóia, não.
Basta jogar uma porção de arsênico e pronto.
Quem é que vai descobrir arsênico no meio daquelas coisas da paella? Arroz, açafrão, pimentão, carne, camarão, polvo, lula, mexilhão. Causa mortis: intoxicação alimentar. Você sabe que o arsênico mata como se fosse uma doença e é difícil diagnosticar envenenamento. O cara fica cansado, letárgico, deprimido. Vem diarréia, enjôo, perda de peso, de cabelos, tudo para o medico diagnosticar tudo, menos envenenamento. Então, chega a morte. Assim de mansinho.
Estou tão chateado com tudo isso que acho que vou aceitar o convite para morrer.
Tratamento, eu? Um psiquiatra? Você precisa muito mais, meu velho. Quem é que fica sublimando tudo? O pior cego é aquele que não quer ver. Eu estou na real, você não, ainda parece aquele mesmo adolescente que escrevia versinhos para as mulheres do La Licorne, elas que gostavam mais de ler notas de dólar.
Quer saber? Vou ao jantar. E que seja o belo jantar da minha morte.
Haverá velas brancas e amarelas acesas em castiçais próximos da mesa. Nada a ver com paella. Muito a ver com minha morte.
As velas vão me piscar do além e me lamber de longe e eu não vou me importar. Morrerei depois da paella com toda a minha dignidade e plena certeza de que tudo valeu a pena mesmo com minha alma pequena. Ai, que frase horrivel!
Nos brindes antes do jantar, taças com Abadal Cabernet serão erguidas e a dona da casa pedirá a palavra.
Respirarei fundo para não extravasar minha raiva diante daquele sorriso que será um traço sutil de descaramento e cinismo. Sorrirei, também. Mas, na verdade eu já estarei meio morto de ódio. Malditaaassss!!!
(Cenário 3: Mesa de jantar magnificamente arrumada para o jantar. Ele, sentado à cabeceira da mesa, como convidado especial, olha desconfiado e um pouco assustado para a mulher e as amigas, todas com roupas elegantes. A anfitriã se ergue e inicia um discurso.)
Anfitriã: A razão deste jantar é que estamos preocupadas com você, muito preocupadas mesmo. Você sabe muito bem que o cigarro mata!
Marido: Arsênico, também.
Anfitriã: Como???
Marido: Esquece...
Anfitriã: Queremos que você deixe o cigarro e viva mais. Cinco de nós perderam o marido para o cigarro. Cinco. Só uma acha que não foi o cigarro.
Uma das víuvas interfere: Conta pra ele, conta...
Anfitriã: Bem... A secretária levou a culpa... Mas, aquele cigarro depois é que provocou o enfarte. Tinha até buraco no colchão. Meu falecido marido viu as fotos da Polícia, as fotos estavam junto com a calcinha que a secretária esqueceu na fuga desesperada do motel.
Marido: (ri nervosamente, um riso sem nexo).
Anfitriã: Peço licença à minha grande amiga Glorinha para dizer que você é neste momento o único homem de nossas vidas.
Glorinha (emocionada): O único homem...
Anfitriã: Por favor, pare de fumar.
Todas as mulheres em coro: Páre, Páre, Páre!!!
(As mulheres erguem-se ao mesmo e correm até ele para um grande abraço.
Fecham-se as cortinas. Logo depois, ele sai detrás das cortinas, num canto do palco, falando ao celular)
--- A maior paella, meu amigo... O vinho? Nem te conto... Eu sou o único homem num jantar de mulheres, perdido entre beijos e abraços. Estou me sentindo um sultão de Bagdá e se a Glorinha bobear vou ficar com todas ... Falta de ar? Que falta de ar, velho? Estou com o fôlego todo...Enfim, meu amigo, se nos próximos dias você por acaso reparar numa mesa de café com um homem cercado de mulheres por todos os lados, e se a soma das idades dessas mulheres der um total aproximado de uns seiscentos anos, pode ter certeza: o homem sou eu. Claro que não vou estar fumando. Desculpe, desculpe, mas eu tenho que voltar à mesa... Tcháuuu!!!! (despede-se também da platéia e volta para trás das cortinas)
FIM
RUA TICO-TICO (miguel arcanjo terra)
Havia uma rua em Moema com nome de Tico-Tico.
--- O Tico-Tico ta?
---Tá!
--- Tá outra vez aqui?
--- Ta!
--- O Tico-Tico ta comendo meu fubá.
Um Baba-Ovo qualquer implica-se com o Tico-Tico:
--- O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer umas minhocas no pomar
Mas por favor, tire esse bicho do seleiro
Porque ele acaba comendo o fubá inteiro
E nesse tico de cá, em cima do meu fubá
Tem tanta coisa que ele pode pinicar
Eu ja fiz tudo para ver se conseguia
Botei alpiste para ver se ele comia
Botei um galo, um espantalho e alçapão
Mas ele acha que fubá é que é boa alimentação
Com uma velha vocação bajuladora, e com medo de perder o seu fubá, o Baba-Ovo ergue-se diante de seus pares na Câmara Municipal, espanta o Tico-Tico do muro e reserva o lugar para um Ministro.
Ele, o Ministro, ainda está lá pendurado numa placa.
Basta consultar o Guia de São Paulo para confirmar.
O Tico-Tico nunca mais se viu nem se falou.
Talvez alguém questione qual a importância de um Tico-Tico diante de um Ministro.
Afinal, o que é um Tico-Tico na história de um país que, igual a todos os países do Terceiro Mundo,reverencia a Águia Americana?
Cabe aqui uma analogia para se medir a importância das coisas, com a devida licença de Platão, mestre no assunto.
Cena 1: Carmem Miranda canta Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu:
--- O Tico-Tico ta, ta outra vez aqui, o Tico-Tico ta comendo o meu fubá...
O povo na rua se envolve alegremente. Dança com o Tico-Tico. Ri. Brinca. É a divina transformação do adulto numa criança feliz.
Cena 2: Um Baba-Ovo bate palmas, mas não é aplauso, é uma ordem. Que parem a dança e parem a música e se alinhem e se endireitem em posição de sentido e que em lugar do chorinho cantem o Hino Nacional. A rua agora é do Ministro.
Num país, num estado, numa cidade, numa rua, nada é mais triste do que espantar um Tico-Tico para homenagear um Ministro.
O mal deste país sempre foi confundir pardal com Tico-Tico.
O Tico-Tico traz um topete na testa. Mas, não é topetudo, no sentido arrogante da palavra. Em sua humildade, ele choca os ovos do chupim e ainda alimenta os filhotes. O chupim, esperto, joga fora os ovos que estavam no ninho do Tico-Tico e põe os seus no lugar. Assim nasce uma ninhada inteira de chupins, essa espécie que saiu dos campos para diversas instituições públicas.
O Tico-Tico também não voa em grandes bandos. Não é um passarinho político. E nunca armou conchavos para ser um símbolo e um dos mais populares representantes de nossa fauna.
Assim como o chorinho de Zequinha de Abreu, o Tico-Tico é o Brasil brasileirinho, o Brasil Tico-Tico no Fubá, quando as crianças à tarde brincavam livremente numa rua que ainda não era do Ministro e o Tico-Tico ciscava o chão e os jardins.
Há quase 50 anos, foi plantada uma muda de Sibipiruna na Tico-Tico, em frente de uma das casas mais felizes da rua.
A árvore continua lá. A casa virou um grande prédio de apartamentos.
E numa dessas manhãs em que a gente sai em fuga dos fantasmas que rondam nossas almas, lá estava um Tico-Tico num galho da Sibipiruna. Havia uma flor amarela ao seu lado. O Tico-Tico e uma flor amarela.
Deu vontade de chorar.
Mas, a placa da rua com nome de Ministro estava bem à vista e a vontade passou.
Naquela casa foi ensinado, num lindo domingo de Primavera, que um homem pode chorar diante de um poeta.
Mas, jamais diante de um Ministro.
--- O Tico-Tico ta?
---Tá!
--- Tá outra vez aqui?
--- Ta!
--- O Tico-Tico ta comendo meu fubá.
Um Baba-Ovo qualquer implica-se com o Tico-Tico:
--- O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer umas minhocas no pomar
Mas por favor, tire esse bicho do seleiro
Porque ele acaba comendo o fubá inteiro
E nesse tico de cá, em cima do meu fubá
Tem tanta coisa que ele pode pinicar
Eu ja fiz tudo para ver se conseguia
Botei alpiste para ver se ele comia
Botei um galo, um espantalho e alçapão
Mas ele acha que fubá é que é boa alimentação
Com uma velha vocação bajuladora, e com medo de perder o seu fubá, o Baba-Ovo ergue-se diante de seus pares na Câmara Municipal, espanta o Tico-Tico do muro e reserva o lugar para um Ministro.
Ele, o Ministro, ainda está lá pendurado numa placa.
Basta consultar o Guia de São Paulo para confirmar.
O Tico-Tico nunca mais se viu nem se falou.
Talvez alguém questione qual a importância de um Tico-Tico diante de um Ministro.
Afinal, o que é um Tico-Tico na história de um país que, igual a todos os países do Terceiro Mundo,reverencia a Águia Americana?
Cabe aqui uma analogia para se medir a importância das coisas, com a devida licença de Platão, mestre no assunto.
Cena 1: Carmem Miranda canta Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu:
--- O Tico-Tico ta, ta outra vez aqui, o Tico-Tico ta comendo o meu fubá...
O povo na rua se envolve alegremente. Dança com o Tico-Tico. Ri. Brinca. É a divina transformação do adulto numa criança feliz.
Cena 2: Um Baba-Ovo bate palmas, mas não é aplauso, é uma ordem. Que parem a dança e parem a música e se alinhem e se endireitem em posição de sentido e que em lugar do chorinho cantem o Hino Nacional. A rua agora é do Ministro.
Num país, num estado, numa cidade, numa rua, nada é mais triste do que espantar um Tico-Tico para homenagear um Ministro.
O mal deste país sempre foi confundir pardal com Tico-Tico.
O Tico-Tico traz um topete na testa. Mas, não é topetudo, no sentido arrogante da palavra. Em sua humildade, ele choca os ovos do chupim e ainda alimenta os filhotes. O chupim, esperto, joga fora os ovos que estavam no ninho do Tico-Tico e põe os seus no lugar. Assim nasce uma ninhada inteira de chupins, essa espécie que saiu dos campos para diversas instituições públicas.
O Tico-Tico também não voa em grandes bandos. Não é um passarinho político. E nunca armou conchavos para ser um símbolo e um dos mais populares representantes de nossa fauna.
Assim como o chorinho de Zequinha de Abreu, o Tico-Tico é o Brasil brasileirinho, o Brasil Tico-Tico no Fubá, quando as crianças à tarde brincavam livremente numa rua que ainda não era do Ministro e o Tico-Tico ciscava o chão e os jardins.
Há quase 50 anos, foi plantada uma muda de Sibipiruna na Tico-Tico, em frente de uma das casas mais felizes da rua.
A árvore continua lá. A casa virou um grande prédio de apartamentos.
E numa dessas manhãs em que a gente sai em fuga dos fantasmas que rondam nossas almas, lá estava um Tico-Tico num galho da Sibipiruna. Havia uma flor amarela ao seu lado. O Tico-Tico e uma flor amarela.
Deu vontade de chorar.
Mas, a placa da rua com nome de Ministro estava bem à vista e a vontade passou.
Naquela casa foi ensinado, num lindo domingo de Primavera, que um homem pode chorar diante de um poeta.
Mas, jamais diante de um Ministro.
RUA TUIM
Tuim. Periquito cheio de amor pra voar. Manso e bonito.
Quando formam um par, ele e ela roçam suas penas, se afagam e cantam:
---Tuim, Tuim, Nunca Voe de Mim.
Se ninguém ouviu é porque anda distraído com o celular e canto de Tuim não entra em ouvido ocupado.
Amor de Tuim é desses raros amores que cantam na chuva.
Ele e ela, amor molhadinho, espargido um no outro.
E se fossem tangarás --- ele de Gene Kelly, ela de Cyd Charisse --- também dançariam na chuva, no meio da rua e alguma boa alma colocaria no ar, solta ao vento, a canção Singin’in the Rain.
A dança do amor do Tangará nenhuma criatura dança com tanta graça.
Diversos machos, às vezes até oito, diante de uma única fêmea, se soltam no ar com toda a paixão. Ela escolhe o mais encantador.
E o amor se cruza sob plumagens verdes e vermelhas, macio e delicado.
O Tuim também tem sua magia.
Mulher que achar e guardar seu ninho terá o homem que quiser.
Ele é o Periquito de Santo Antônio.
Sob as árvores da rua Tuim, uma velhinha parou saudosa. Olhar antigo.
---Na vida o amor é a coisa mais gostosa.
Falou bem assim.
O marido ela pegara no ninho.
Mas, o ninho do Tuim secou, voou, e o vento levou o marido pelo mesmo caminho.
Ela seguiu pela rua com seu andar capenga. Eram duas velhinhas cansadas: ela e a cachorra molenga.
Então, tocaram a campainha.
Ninguém.
Uma casa com alma de gato, coberta com unhas de gato nos muros e nas paredes. Mas cadê o gato, alguém, cadê?
Quem corta as unhas naquela casa? Ninguém?
O número da casa não importa e só o periquitinho verde sabe sua sorte. Não fica bem contar um conto e aumentar um ponto. E tomara que as unhas daquela casa tenham um bom corte.
Mas, na Tuim também existe uma casa amarela, singela, com barulho de panela.
O Sol sempre passa pela janela de quem bate panela numa casa amarela.
Almas da Tuim pintadas de aquarela.
Ninguém viu o Sebastião que varre o chão?
Folhas mortas, varridas da calçada, barulho do Sebastião, que abençoa o vento. Sem a vassoura, ele fica com o coração na mão.
Sebastião, na Tuim, tem mais de um. E nenhum quer mais nos seus sonhos nem jaca nem jerimum.
Agora, quem anda com o olhar no chão, que conte as folhas caídas.
Quem anda com o olhar no alto, que pegue uma flor de Ipê.
Brinque de ver na Tuim os pés não importa de quê.
Lá atrás daquele poste tem um pé de manacá. Você vai pra lá?
Num quintal sobrevivente, aparecem três velhos pés: Um é de Jabuticaba, outros dois de gente.
Um galho de Flamboyant, na altura do sexto andar, pede água à moça na janela. A moça não ouve, ocupada com o vidro, mãos de flanela.
Como um Flamboyant de Madagascar veio parar em Moema? E por que essa árvore fica tão seca no Inverno? Não pergunte à moça da janela. Ela também é seca e não espera flores como um pé de Ipê.
Agora, um conselho: Quando a alma doer um pouco, pegue uma tarde ou uma manhã da Tuim.
Existe muito amor a caminhar pelas calçadas. Mas, é bom lembrar: só pega o amor quem tem amor pra dar.
(miguel arcanjo terra)
Quando formam um par, ele e ela roçam suas penas, se afagam e cantam:
---Tuim, Tuim, Nunca Voe de Mim.
Se ninguém ouviu é porque anda distraído com o celular e canto de Tuim não entra em ouvido ocupado.
Amor de Tuim é desses raros amores que cantam na chuva.
Ele e ela, amor molhadinho, espargido um no outro.
E se fossem tangarás --- ele de Gene Kelly, ela de Cyd Charisse --- também dançariam na chuva, no meio da rua e alguma boa alma colocaria no ar, solta ao vento, a canção Singin’in the Rain.
A dança do amor do Tangará nenhuma criatura dança com tanta graça.
Diversos machos, às vezes até oito, diante de uma única fêmea, se soltam no ar com toda a paixão. Ela escolhe o mais encantador.
E o amor se cruza sob plumagens verdes e vermelhas, macio e delicado.
O Tuim também tem sua magia.
Mulher que achar e guardar seu ninho terá o homem que quiser.
Ele é o Periquito de Santo Antônio.
Sob as árvores da rua Tuim, uma velhinha parou saudosa. Olhar antigo.
---Na vida o amor é a coisa mais gostosa.
Falou bem assim.
O marido ela pegara no ninho.
Mas, o ninho do Tuim secou, voou, e o vento levou o marido pelo mesmo caminho.
Ela seguiu pela rua com seu andar capenga. Eram duas velhinhas cansadas: ela e a cachorra molenga.
Então, tocaram a campainha.
Ninguém.
Uma casa com alma de gato, coberta com unhas de gato nos muros e nas paredes. Mas cadê o gato, alguém, cadê?
Quem corta as unhas naquela casa? Ninguém?
O número da casa não importa e só o periquitinho verde sabe sua sorte. Não fica bem contar um conto e aumentar um ponto. E tomara que as unhas daquela casa tenham um bom corte.
Mas, na Tuim também existe uma casa amarela, singela, com barulho de panela.
O Sol sempre passa pela janela de quem bate panela numa casa amarela.
Almas da Tuim pintadas de aquarela.
Ninguém viu o Sebastião que varre o chão?
Folhas mortas, varridas da calçada, barulho do Sebastião, que abençoa o vento. Sem a vassoura, ele fica com o coração na mão.
Sebastião, na Tuim, tem mais de um. E nenhum quer mais nos seus sonhos nem jaca nem jerimum.
Agora, quem anda com o olhar no chão, que conte as folhas caídas.
Quem anda com o olhar no alto, que pegue uma flor de Ipê.
Brinque de ver na Tuim os pés não importa de quê.
Lá atrás daquele poste tem um pé de manacá. Você vai pra lá?
Num quintal sobrevivente, aparecem três velhos pés: Um é de Jabuticaba, outros dois de gente.
Um galho de Flamboyant, na altura do sexto andar, pede água à moça na janela. A moça não ouve, ocupada com o vidro, mãos de flanela.
Como um Flamboyant de Madagascar veio parar em Moema? E por que essa árvore fica tão seca no Inverno? Não pergunte à moça da janela. Ela também é seca e não espera flores como um pé de Ipê.
Agora, um conselho: Quando a alma doer um pouco, pegue uma tarde ou uma manhã da Tuim.
Existe muito amor a caminhar pelas calçadas. Mas, é bom lembrar: só pega o amor quem tem amor pra dar.
(miguel arcanjo terra)
RUA LAVANDISCA
Essa rua virava lama nas chuvas de Verão.
Numa dessas tardes em que a soma de tudo dá como resultado um dia perdido, ele tirou as galochas, os sapatos, bateu barro no tanque e gritou em fúria:
--- Prefeito de merda!!!
Só mesmo fora de si falava uma coisa dessas. E fora de si invocou todos os espíritos com que lidava no seu fundo de quintal. Serviu uísque e bebeu com eles. Dançou na lama e bêbado foi dormir. Nem ocupou seu lugar na hora do jantar. Mas, lavou os pés.
Logo na manhã seguinte, centenas de passarinhos ocuparam a rua. Vieram pelo chamado daqueles espíritos do fundo de quintal.
Já chegaram batendo asas nas poças d’água. Batiam e espalhavam longe. Com seus pés e caudas, também amassavam a lama, espremiam, até que a terra finalmente secou.
O velhinho que contou a história disse que os passarinhos desapareceram de Moema faz muito tempo.
O velhinho está agora nos seus quatro anos de idade. Mas, aparenta muito mais.
Não dança mais nem chama seus espíritos de fundo de quintal, mas está morrendo de saudade. Coisas da idade.
O passarinho mede uns vinte centímetros de comprimento, falou.
Deve haver uns três centímetros de aumento. Mas, o velhinho não mente, o problema é da lente.
O passarinho tem cauda longa. A cabeça e a garganta são negras. A barriga e as faces brancas. Seu nome é Alvéloa, mas também atende pelo apelido de Lavandisca ou Lavandeira.
Se alguém encontrar, ligue para o velhinho.
Qual o telefone, qual o seu nome?
Esse é o problema: ele esqueceu todas as coisas que não sejam passarinho.
Velhinho que sobra é um sobrado.
E sobrado em Moema vira pó.
Na Lavandisca já caíram tantos.
E quando a casa cai, nem sempre há verba e frescura suficientes para cerveja importada ou uma feijoada light.
Aconselhável é comer Escondidinho na esquina. Mandioca e carne seca custam menos e rendem mais.
Desaconselhável é a auto-piedade pela falta de inteligência. Afinal, também falta inteligência no semáforo de pedestres da esquina com a Diogo Jácome.
A realidade do tempo virtual nem sempre combina com a do tempo real.
Tempo virtual é o que pode vir a ser. É o novo tempo de Moema.
As árvores continuam na real, mas elas são invisíveis num mundo virtual e o vir a ser passa por elas ligado num celular, indiferente.
Nas mesas dos bares, choperias e restaurantes da Lavandisca nem adianta beber para voltar ao tempo real. Conversas e olhares virtuais deixam patéticos os velhos garçons que ainda não são magnéticos.
Num mundo onde as pessoas vivem a sós com seus celulares de que servem cadeiras nas calçadas, se ninguém vai perceber a solidão menina de rua passar?
E as mãos negras e mendigas daquela mulher não encontram outras mãos, só as de si mesma, numa súplica. No tempo virtual são raros os momentos em que se pode juntar as mãos num Obrigado, meu Deus, ou num Deus lhe Pague.
A esperança na Lavandisca é ser Zen num restaurante japonês.
Jamais passe onde Deus não está. Mas, onde Ele está, passe depressa.
Ou questionar, só para chatear, não um Koan do Zen, mas o tamanho do colarinho do chope na mais antiga e correta casa de São Paulo. Espuma com menos de três centímetros, amarga o chope. E se for mais, amarga a conta.
Por falar em chope, na Lavandisca havia um pé de Dama da Noite.
Só os bêbados de passagem sentiram seu perfume em tempo real.
Desculpem os ais, mas hoje é enjoativo o cheiro das damas da noite virtuais.
Dá até medo de sonhar, porque vai tocar o celular.
Pobres valets que lidam com tickets e tiques nervosos. Eles são de outro mundo, o subsolo ou a parte do fundo, e formam com lavadores de pratos, faxineiros e entregadores de pizza o universo paralelo da Lavandisca, onde o tempo é real.
Em dois ou três botecos espremidos entre prédios e restaurantes de luxo, eles brindam depois do trabalho a volta à bucólica condição humana de procurar quebrar o gelo com um gole de cachaça. E dividir com dois ou três a conta da cerveja. Então, riem debochados dos homens tigres que passam.
Um tigre, dois tigres, três tigres.
--- Repita depressa, brincam entre eles.
--- Um tigre, dois tigres, três tigres.
Pobre, quando falta dinheiro, vira bicho.
Os bravos vão para a cadeia. Aqueles três tigres eram mansos e vinham de uma promoção de rua de uma academia de ginástica.
Mesmo sob peles encardidas de tigres de mentira, até os feios e pobres são bonitos em Moema. Dá para ver por fora.
Por dentro, sinceramente, quem é que ama o feio e bonito lhe parece?
E quem é que batalharia amorosamente para que em cada varanda dos prédios da Lavandisca plantassem uma rosa?
Qual o passante que perderia seu tempo a contar: Uma rosa é uma rosa, é uma rosa?
Existe muita pressa no tempo virtual para uma coisa dessas.
Essa pressa de andar e chegar, de ver e comprar. O tempo virtual que nos consome é o mesmo de nossa ânsia de consumo.
Mas, ainda existe um restinho de tempo real para se aproveitar na Lavandisca. Com ou sem colarinho.
Depois do sexto caneco, faça um favor a um velhinho: pergunte na mesa ao lado se alguém, por acaso, viu um passarinho de uns vinte centímetros de comprimento, que atende pelo apelido de Lavandisca ou Lavandeira.
Se fizerem gracinha, não leve a mal. Lembre-se de que você estará bêbado, também.
(miguel arcanjo terra)
Numa dessas tardes em que a soma de tudo dá como resultado um dia perdido, ele tirou as galochas, os sapatos, bateu barro no tanque e gritou em fúria:
--- Prefeito de merda!!!
Só mesmo fora de si falava uma coisa dessas. E fora de si invocou todos os espíritos com que lidava no seu fundo de quintal. Serviu uísque e bebeu com eles. Dançou na lama e bêbado foi dormir. Nem ocupou seu lugar na hora do jantar. Mas, lavou os pés.
Logo na manhã seguinte, centenas de passarinhos ocuparam a rua. Vieram pelo chamado daqueles espíritos do fundo de quintal.
Já chegaram batendo asas nas poças d’água. Batiam e espalhavam longe. Com seus pés e caudas, também amassavam a lama, espremiam, até que a terra finalmente secou.
O velhinho que contou a história disse que os passarinhos desapareceram de Moema faz muito tempo.
O velhinho está agora nos seus quatro anos de idade. Mas, aparenta muito mais.
Não dança mais nem chama seus espíritos de fundo de quintal, mas está morrendo de saudade. Coisas da idade.
O passarinho mede uns vinte centímetros de comprimento, falou.
Deve haver uns três centímetros de aumento. Mas, o velhinho não mente, o problema é da lente.
O passarinho tem cauda longa. A cabeça e a garganta são negras. A barriga e as faces brancas. Seu nome é Alvéloa, mas também atende pelo apelido de Lavandisca ou Lavandeira.
Se alguém encontrar, ligue para o velhinho.
Qual o telefone, qual o seu nome?
Esse é o problema: ele esqueceu todas as coisas que não sejam passarinho.
Velhinho que sobra é um sobrado.
E sobrado em Moema vira pó.
Na Lavandisca já caíram tantos.
E quando a casa cai, nem sempre há verba e frescura suficientes para cerveja importada ou uma feijoada light.
Aconselhável é comer Escondidinho na esquina. Mandioca e carne seca custam menos e rendem mais.
Desaconselhável é a auto-piedade pela falta de inteligência. Afinal, também falta inteligência no semáforo de pedestres da esquina com a Diogo Jácome.
A realidade do tempo virtual nem sempre combina com a do tempo real.
Tempo virtual é o que pode vir a ser. É o novo tempo de Moema.
As árvores continuam na real, mas elas são invisíveis num mundo virtual e o vir a ser passa por elas ligado num celular, indiferente.
Nas mesas dos bares, choperias e restaurantes da Lavandisca nem adianta beber para voltar ao tempo real. Conversas e olhares virtuais deixam patéticos os velhos garçons que ainda não são magnéticos.
Num mundo onde as pessoas vivem a sós com seus celulares de que servem cadeiras nas calçadas, se ninguém vai perceber a solidão menina de rua passar?
E as mãos negras e mendigas daquela mulher não encontram outras mãos, só as de si mesma, numa súplica. No tempo virtual são raros os momentos em que se pode juntar as mãos num Obrigado, meu Deus, ou num Deus lhe Pague.
A esperança na Lavandisca é ser Zen num restaurante japonês.
Jamais passe onde Deus não está. Mas, onde Ele está, passe depressa.
Ou questionar, só para chatear, não um Koan do Zen, mas o tamanho do colarinho do chope na mais antiga e correta casa de São Paulo. Espuma com menos de três centímetros, amarga o chope. E se for mais, amarga a conta.
Por falar em chope, na Lavandisca havia um pé de Dama da Noite.
Só os bêbados de passagem sentiram seu perfume em tempo real.
Desculpem os ais, mas hoje é enjoativo o cheiro das damas da noite virtuais.
Dá até medo de sonhar, porque vai tocar o celular.
Pobres valets que lidam com tickets e tiques nervosos. Eles são de outro mundo, o subsolo ou a parte do fundo, e formam com lavadores de pratos, faxineiros e entregadores de pizza o universo paralelo da Lavandisca, onde o tempo é real.
Em dois ou três botecos espremidos entre prédios e restaurantes de luxo, eles brindam depois do trabalho a volta à bucólica condição humana de procurar quebrar o gelo com um gole de cachaça. E dividir com dois ou três a conta da cerveja. Então, riem debochados dos homens tigres que passam.
Um tigre, dois tigres, três tigres.
--- Repita depressa, brincam entre eles.
--- Um tigre, dois tigres, três tigres.
Pobre, quando falta dinheiro, vira bicho.
Os bravos vão para a cadeia. Aqueles três tigres eram mansos e vinham de uma promoção de rua de uma academia de ginástica.
Mesmo sob peles encardidas de tigres de mentira, até os feios e pobres são bonitos em Moema. Dá para ver por fora.
Por dentro, sinceramente, quem é que ama o feio e bonito lhe parece?
E quem é que batalharia amorosamente para que em cada varanda dos prédios da Lavandisca plantassem uma rosa?
Qual o passante que perderia seu tempo a contar: Uma rosa é uma rosa, é uma rosa?
Existe muita pressa no tempo virtual para uma coisa dessas.
Essa pressa de andar e chegar, de ver e comprar. O tempo virtual que nos consome é o mesmo de nossa ânsia de consumo.
Mas, ainda existe um restinho de tempo real para se aproveitar na Lavandisca. Com ou sem colarinho.
Depois do sexto caneco, faça um favor a um velhinho: pergunte na mesa ao lado se alguém, por acaso, viu um passarinho de uns vinte centímetros de comprimento, que atende pelo apelido de Lavandisca ou Lavandeira.
Se fizerem gracinha, não leve a mal. Lembre-se de que você estará bêbado, também.
(miguel arcanjo terra)
AVENIDA MACUCO
Frase do dia no espelho da barbearia:
Em conversa de Raposa, Macuco não pia.
Duas cadeiras à moda antiga e um barbeiro em busca do tempo perdido.
--- Macuco voa?
O barbeiro parou a tesoura no ar, para responder:
--- Eu só sei que a pata nada. Pata pá. Nada ná. Aprendi na escola.
--- Afinal, Macuco voa ou não voa?
--- Sei lá, doutor. Mas, me contaram que Macuco vive no meio do mato e é muito arisco. Eu nunca vi.
--- Nunca viu? Mas, você não veio do meio do mato?
--- Só porque eu sou meio arisco?
Já que barbearia é lugar para se jogar o tempo fora, a conversa continuou:
--- Macuco não voa, sabia? Galinha é do mesmo jeito. Só bate asas quando despenca do poleiro. Agora, Macuco é bem maior, do tamanho de um peru. E muito mais esquisito. Ele se empoleira nos galhos das árvores à noite, não pra dormir, mas pra fugir dos bichos do mato. Só quando amanhece, é que ele desce dos galhos e já desce caindo de sono.
--- Macuco dorme no chão, doutor?
--- Não disse que ele era esquisitão? Seus ninhos também são no chão e os ovos azuis.
--- A conversa não está ficando meio mole, doutor?
--- Pra falar de Macuco só pode ser conversa mole. Ele é meio bobo. Cai fácil no pio de caçador. Vai chegando, chegando e era uma vez um Macuco da Mata Atlântica que acabou na panela e não deu mais um pio. Você já ouviu falar de Macuco Truffés à la Royale?
--- O que?
--- Primeiro, a gente desossa o Macuco, depois tempera com sal a gosto e ervas finas, deixa descansar por umas duas horas, leva ao fogo até que a carne fique bem macia e, então, retira e arruma numa travessa grande e chique para o toque final. Quenelles!.
--- Quenelles?
--- São bolinhos de carne de porco ou vitela que guarnecem o Macuco. Também acompanha trufas ou escalopes de foi gras.
--- Não sei do que o doutor está falando, mas me deu água na boca.
--- Melhor pedir um quibe ali em frente. Macuco é ave sob proteção ambiental. Sua caça é crime inafiançável.
--- Ainda bem, doutor. Se não já teriam inventado pizza de Macuco. Aqui mesmo nesta rua, conheci uma casa com mais de quarenta tipos de pizza. Tem até pizza doce. Só falta pizza de abacate, enfeitada com caroço.
--- Pizzaiolo e político têm uma coisa em comum: tudo acaba em pizza.
Cheia de contrastes, conversa de cadeira de barbeiro de um lado, fofocas de coiffeur de outro, a Macuco leva a vida assim: ponto e contraponto.
Ponto: Business Center de uma rede multinacional de hotéis.
Contraponto: Uma banca de jogo de bicho camuflada numa velha garagem alugada para outros fins.
Ponto: Um empório sofisticado, com pães e mais de mil itens de produtos nas gôndolas.
Contraponto: A porta escancarada e simpática de uma adega que vende cerveja, groselha, paçoquinha, maria-mole, sabão em pedra, uísque e vinho importados.
Ponto: Os primeiros prédios de Moema com vista para a pista do aeroporto de Congonhas.
Contraponto: Os mais novos prédios de Moema, com vista para os mais novos prédios de Moema.
Ponto: Um estúdio de som entre os melhores de São Paulo.
Contraponto: O som da serra elétrica ou de um prosaico serrote numa marcenaria quebra-galho.
Ponto: Táxi.
Contraponto: Cadê o táxi?
Ponto: Vagas numa excelente escola de música.
Contraponto: Vende-se piano. Informações com o zelador.
Ponto: Cozinha italiana grifada pela TV.
Contraponto: Deliciosa cozinha italiana, sem nenhuma grife, pendurada na esquina com a Canário.
Ponto: Horti-fruti com manobrista.
Contraponto: Vendedor de mandioca em carrinho de mão.
Ponto: As rosas, tantas rosas, num vasto e aberto gramado de um grande prédio de apartamentos, a tocar pelas grades os passantes.
Contraponto: As marias-sem-vergonhas, tantas e tímidas marias, encolhidas na vasta sombra das árvores de outro prédio.
Ponto: A cachaça sem luxo do boteco da esquina.
Contraponto: A cachaça de presidente numa casa 5 estrelas.
Ponto: O boteco da esquina continua aberto.
Contraponto: A casa 5 estrelas fechou.
Ponto: Especialistas em depilação com cera quente.
Contraponto: Farmácia que manipula produtos contra queimaduras da pele.
Ponto: Na Macuco, quando menos pensares, gozará de grandes bens e fortuna e o teu futuro será mais brilhante do que pensas. O periquitinho da sorte garante. O Thiago do realejo, também. E os dois esperam que na próxima manhã de sábado em que tocar o realejo você desça até a rua e pegue seu número da sorte.
Contraponto: Azar seu, se não descer.
(miguel arcanjo terra)
Em conversa de Raposa, Macuco não pia.
Duas cadeiras à moda antiga e um barbeiro em busca do tempo perdido.
--- Macuco voa?
O barbeiro parou a tesoura no ar, para responder:
--- Eu só sei que a pata nada. Pata pá. Nada ná. Aprendi na escola.
--- Afinal, Macuco voa ou não voa?
--- Sei lá, doutor. Mas, me contaram que Macuco vive no meio do mato e é muito arisco. Eu nunca vi.
--- Nunca viu? Mas, você não veio do meio do mato?
--- Só porque eu sou meio arisco?
Já que barbearia é lugar para se jogar o tempo fora, a conversa continuou:
--- Macuco não voa, sabia? Galinha é do mesmo jeito. Só bate asas quando despenca do poleiro. Agora, Macuco é bem maior, do tamanho de um peru. E muito mais esquisito. Ele se empoleira nos galhos das árvores à noite, não pra dormir, mas pra fugir dos bichos do mato. Só quando amanhece, é que ele desce dos galhos e já desce caindo de sono.
--- Macuco dorme no chão, doutor?
--- Não disse que ele era esquisitão? Seus ninhos também são no chão e os ovos azuis.
--- A conversa não está ficando meio mole, doutor?
--- Pra falar de Macuco só pode ser conversa mole. Ele é meio bobo. Cai fácil no pio de caçador. Vai chegando, chegando e era uma vez um Macuco da Mata Atlântica que acabou na panela e não deu mais um pio. Você já ouviu falar de Macuco Truffés à la Royale?
--- O que?
--- Primeiro, a gente desossa o Macuco, depois tempera com sal a gosto e ervas finas, deixa descansar por umas duas horas, leva ao fogo até que a carne fique bem macia e, então, retira e arruma numa travessa grande e chique para o toque final. Quenelles!.
--- Quenelles?
--- São bolinhos de carne de porco ou vitela que guarnecem o Macuco. Também acompanha trufas ou escalopes de foi gras.
--- Não sei do que o doutor está falando, mas me deu água na boca.
--- Melhor pedir um quibe ali em frente. Macuco é ave sob proteção ambiental. Sua caça é crime inafiançável.
--- Ainda bem, doutor. Se não já teriam inventado pizza de Macuco. Aqui mesmo nesta rua, conheci uma casa com mais de quarenta tipos de pizza. Tem até pizza doce. Só falta pizza de abacate, enfeitada com caroço.
--- Pizzaiolo e político têm uma coisa em comum: tudo acaba em pizza.
Cheia de contrastes, conversa de cadeira de barbeiro de um lado, fofocas de coiffeur de outro, a Macuco leva a vida assim: ponto e contraponto.
Ponto: Business Center de uma rede multinacional de hotéis.
Contraponto: Uma banca de jogo de bicho camuflada numa velha garagem alugada para outros fins.
Ponto: Um empório sofisticado, com pães e mais de mil itens de produtos nas gôndolas.
Contraponto: A porta escancarada e simpática de uma adega que vende cerveja, groselha, paçoquinha, maria-mole, sabão em pedra, uísque e vinho importados.
Ponto: Os primeiros prédios de Moema com vista para a pista do aeroporto de Congonhas.
Contraponto: Os mais novos prédios de Moema, com vista para os mais novos prédios de Moema.
Ponto: Um estúdio de som entre os melhores de São Paulo.
Contraponto: O som da serra elétrica ou de um prosaico serrote numa marcenaria quebra-galho.
Ponto: Táxi.
Contraponto: Cadê o táxi?
Ponto: Vagas numa excelente escola de música.
Contraponto: Vende-se piano. Informações com o zelador.
Ponto: Cozinha italiana grifada pela TV.
Contraponto: Deliciosa cozinha italiana, sem nenhuma grife, pendurada na esquina com a Canário.
Ponto: Horti-fruti com manobrista.
Contraponto: Vendedor de mandioca em carrinho de mão.
Ponto: As rosas, tantas rosas, num vasto e aberto gramado de um grande prédio de apartamentos, a tocar pelas grades os passantes.
Contraponto: As marias-sem-vergonhas, tantas e tímidas marias, encolhidas na vasta sombra das árvores de outro prédio.
Ponto: A cachaça sem luxo do boteco da esquina.
Contraponto: A cachaça de presidente numa casa 5 estrelas.
Ponto: O boteco da esquina continua aberto.
Contraponto: A casa 5 estrelas fechou.
Ponto: Especialistas em depilação com cera quente.
Contraponto: Farmácia que manipula produtos contra queimaduras da pele.
Ponto: Na Macuco, quando menos pensares, gozará de grandes bens e fortuna e o teu futuro será mais brilhante do que pensas. O periquitinho da sorte garante. O Thiago do realejo, também. E os dois esperam que na próxima manhã de sábado em que tocar o realejo você desça até a rua e pegue seu número da sorte.
Contraponto: Azar seu, se não descer.
(miguel arcanjo terra)
RUA PINTASSILGO
Entre duas e quatro horas da tarde, abre-se no mundo um oco profundo.
O pensamento fica bobo e vagabundo.
E nossas almas despencam no abismo.
Fazer o que nessa hora se até o Sol parece sem tino, destino, parado em si?
Então, na palma da mão pousou um Pintassilgo.
Não cantou. Era uma sombra. Bateu asas e voou.
Pintassilgo parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar.
Que horas são?
O mundo da rua Pintassilgo muda de meia em meia hora.
Só antes das duas e depois das quatro é que ele muda. O corte de cabelo, também.
Mas, dos Hair-Centers os cabelos não saem a voar ao vento como antigamente.
As mulheres que voam na Pintassilgo agora são bem poucas e se escondem das outras, usam toucas, Mona Lisas evasivas.
E quem pensa que beleza não dói nunca fez depilação.
Pelo.
Um pelo outro.
Pelos.
Por que tê-los?
O pelo é um chato, o grande pentelho na vaidade da mulher.
E ai do aventureiro que se atrever a brincar de tirar um só, num bem-me-quer, mal-me-quer.
Pela beleza da mulher tantas coisas foram pinçadas da Pintassilgo.
Com quantas butiques o que é chique se multiplica?
Pelo pouco que sobra agora, é fácil imaginar quanta coisa foi embora.
Que horas são?
Alguns sobradinhos geminados, fora do tempo, ainda lembram manhãs da Pintassilgo, serenas manhãs, quando o pão e o leite eram deixados no portão e não passava ladrão.
O Cofee Break virou a mesa.
Dos Jardins Suspensos da Babilônia descem para grandes e sofisticados espaços os conquistadores de uma nova era. E não importa se for apenas quimera.
Ninguém ousa pedir o bucólico pão com manteiga ou o inocente café com leite de todas as manhãs. É coisa da plebe e a plebe é brega, pensam os que não têm mais olhos pra ver.
Mas, a vida é cheia de ironia. E a rainha da mesa, quem diria, é a melancia, uma das raras coisas de que os pobres pegam uma fatia.
Os entregadores de água passam em suas bicicletas, com boca de café requentado e a plena consciência de que na lei do equilíbrio o peso maior pende para o lado mais fraco. E vão em frente a pagar o pato.
Também paga o pato a dona daquela pequena oficina de costura, que pode fechar a qualquer momento.
---Rico não tem remendo, lamenta.
O segredo é ser indiferente para nada doer na gente. Esse o conselho de um sapateiro, que ouviu do pai que na vida tudo tem conserto.
Se remorso já temos tanto, que tal um doce de confeitaria sem nenhum sentimento de culpa?
Que horas são?
É gostoso, às vezes, perder docemente a força de vontade.
O que seria de Deus sem nossos pequenos pecados?
Sem nenhum sentimento de culpa, que Divindade os homens buscariam? Ainda estariam cavalgando a própria sombra numa caverna grega. E quem sabe seriam mal humorados e insuportáveis pelo ascetismo, que rima com cinismo.
Verduras, frutas, legumes, cereais.
Anjos e passarinhos adoram.
Só três e meia ainda?
O problema é que o diabo sempre aparece nessa hora.
Às vezes, com uma taça de sorvete.
Se cair em tentação, faça como Freud: ponha a culpa na mãe.
Quem adoçou nosso leite e nos deu o prazer da mamadeira?
Quem nos seduziu com bombons, guaraná e coca-cola para ir ao cinema com papai?
Quem sempre compensou com um pedaço de bolo os seus beliscões?
Quem nos deu a chupeta, que é a desculpa freudiana do nosso cigarro?
Esqueça o regime ou a análise e peça um brigadeiro.
Lembre-se de que médicos e analistas que proíbem o doce talvez, deitados no sofá, abracem ursinhos de pelúcia para compensar uma eventual falta de carinho.
Agora, um segredo, para ninguém espalhar. Existe nos arredores da Pintassilgo um advogado que tira cópias de chave apenas para deixar a impressão de que existe mais alguém em sua vida. O chaveiro apenas faz as chaves, porque nada entende de carências.
Ah, esse oco profundo entre as duas e quatro horas da tarde, quando nossas almas caem no limbo e o pensamento fica bobo e vagabundo.
E por que aparecem nesse horário Chico Buarque, Vinicius e Garoto?
Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com que contar
São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda flores tristes e baldias
Com a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio peço a Deus por minha gente
É gente humilde que vontade de chorar
É certo que entre duas e quatro horas da tarde de dias incertos, a gente se sente como aquele pé de manga na calçada da rua Pintassilgo. Solitário e fora de lugar. Então, é bom acender um incenso para a deusa Kuanin, a que ouve os prantos do mundo, e cantar, com um pouco de mansa loucura:
Sem medo da vida
Sem medo da morte
Sigo meu destino
Pego minha sorte
E sei que a dor
É a parceira do amor.
Que horas são?
Quatro horas.
Graças a Deus.
(miguel arcanjo terra)
O pensamento fica bobo e vagabundo.
E nossas almas despencam no abismo.
Fazer o que nessa hora se até o Sol parece sem tino, destino, parado em si?
Então, na palma da mão pousou um Pintassilgo.
Não cantou. Era uma sombra. Bateu asas e voou.
Pintassilgo parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar.
Que horas são?
O mundo da rua Pintassilgo muda de meia em meia hora.
Só antes das duas e depois das quatro é que ele muda. O corte de cabelo, também.
Mas, dos Hair-Centers os cabelos não saem a voar ao vento como antigamente.
As mulheres que voam na Pintassilgo agora são bem poucas e se escondem das outras, usam toucas, Mona Lisas evasivas.
E quem pensa que beleza não dói nunca fez depilação.
Pelo.
Um pelo outro.
Pelos.
Por que tê-los?
O pelo é um chato, o grande pentelho na vaidade da mulher.
E ai do aventureiro que se atrever a brincar de tirar um só, num bem-me-quer, mal-me-quer.
Pela beleza da mulher tantas coisas foram pinçadas da Pintassilgo.
Com quantas butiques o que é chique se multiplica?
Pelo pouco que sobra agora, é fácil imaginar quanta coisa foi embora.
Que horas são?
Alguns sobradinhos geminados, fora do tempo, ainda lembram manhãs da Pintassilgo, serenas manhãs, quando o pão e o leite eram deixados no portão e não passava ladrão.
O Cofee Break virou a mesa.
Dos Jardins Suspensos da Babilônia descem para grandes e sofisticados espaços os conquistadores de uma nova era. E não importa se for apenas quimera.
Ninguém ousa pedir o bucólico pão com manteiga ou o inocente café com leite de todas as manhãs. É coisa da plebe e a plebe é brega, pensam os que não têm mais olhos pra ver.
Mas, a vida é cheia de ironia. E a rainha da mesa, quem diria, é a melancia, uma das raras coisas de que os pobres pegam uma fatia.
Os entregadores de água passam em suas bicicletas, com boca de café requentado e a plena consciência de que na lei do equilíbrio o peso maior pende para o lado mais fraco. E vão em frente a pagar o pato.
Também paga o pato a dona daquela pequena oficina de costura, que pode fechar a qualquer momento.
---Rico não tem remendo, lamenta.
O segredo é ser indiferente para nada doer na gente. Esse o conselho de um sapateiro, que ouviu do pai que na vida tudo tem conserto.
Se remorso já temos tanto, que tal um doce de confeitaria sem nenhum sentimento de culpa?
Que horas são?
É gostoso, às vezes, perder docemente a força de vontade.
O que seria de Deus sem nossos pequenos pecados?
Sem nenhum sentimento de culpa, que Divindade os homens buscariam? Ainda estariam cavalgando a própria sombra numa caverna grega. E quem sabe seriam mal humorados e insuportáveis pelo ascetismo, que rima com cinismo.
Verduras, frutas, legumes, cereais.
Anjos e passarinhos adoram.
Só três e meia ainda?
O problema é que o diabo sempre aparece nessa hora.
Às vezes, com uma taça de sorvete.
Se cair em tentação, faça como Freud: ponha a culpa na mãe.
Quem adoçou nosso leite e nos deu o prazer da mamadeira?
Quem nos seduziu com bombons, guaraná e coca-cola para ir ao cinema com papai?
Quem sempre compensou com um pedaço de bolo os seus beliscões?
Quem nos deu a chupeta, que é a desculpa freudiana do nosso cigarro?
Esqueça o regime ou a análise e peça um brigadeiro.
Lembre-se de que médicos e analistas que proíbem o doce talvez, deitados no sofá, abracem ursinhos de pelúcia para compensar uma eventual falta de carinho.
Agora, um segredo, para ninguém espalhar. Existe nos arredores da Pintassilgo um advogado que tira cópias de chave apenas para deixar a impressão de que existe mais alguém em sua vida. O chaveiro apenas faz as chaves, porque nada entende de carências.
Ah, esse oco profundo entre as duas e quatro horas da tarde, quando nossas almas caem no limbo e o pensamento fica bobo e vagabundo.
E por que aparecem nesse horário Chico Buarque, Vinicius e Garoto?
Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com que contar
São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda flores tristes e baldias
Com a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio peço a Deus por minha gente
É gente humilde que vontade de chorar
É certo que entre duas e quatro horas da tarde de dias incertos, a gente se sente como aquele pé de manga na calçada da rua Pintassilgo. Solitário e fora de lugar. Então, é bom acender um incenso para a deusa Kuanin, a que ouve os prantos do mundo, e cantar, com um pouco de mansa loucura:
Sem medo da vida
Sem medo da morte
Sigo meu destino
Pego minha sorte
E sei que a dor
É a parceira do amor.
Que horas são?
Quatro horas.
Graças a Deus.
(miguel arcanjo terra)
AVENIDA JACUTINGA
Jacutinga. Nunca viu?
É um grande Jacu em preto e branco.
Jacu. Nunca viu?
É da família das galinhas, pelo lado pobre. E dos perus e faisões, pelo lado nobre.
Cara de Jacu. Nunca viu?
É a cara de gente que caiu em tentação e ficou inadimplente depois da quinta prestação.
Cara de Jacu na Jacutinga. Nunca viu?
Às vezes passa e fica à sombra de um pé de amora, sem asas para dar o fora.
O Guia de São Paulo não informa as saídas para a inadimplência. Nem adianta pedir ao jovem que pára com um Guia à vista na mochila e vai embora depois de colher amora.
Dá um frio na barriga temer o destino erradio de dois antigos andarilhos de Moema. Eles catam bitucas no chão e pedaços de pizza no lixo. Mas, não têm medo da vida nem de gente e se viram pela Jacutinga, vira-latas.Pelo sorriso que levam no seu jeito de ser, parece que a infelicidade dos outros é o velho problema de ter.
O bom andar na Jacutinga é o andar quase parado. E contemplar sem pressa as rosas no jardim de um consultório de dentista. Onde existem rosas qualquer dor dói menos.
No ponto de táxi percebe-se que a corrida de alguns motoristas foi longe demais. Os cabelos que não caíram pelo caminho voltaram brancos. Eles riem do tempo.
Mas, seriedade e preocupação pairam sobre a mesa de um Café. Um executivo tem seu lap-top ligado nas metas do dia. Ai de quem não cumprir e, ai, como é bom andar quase parado e contemplar sem pressa todas as flores à venda numa das vitrines da Jacutinga. As que não estão à venda são amarelas e cobrem varanda e janelas de uma casa símbolo de resistência ou cheia daquela velha paciência de esperar o tempo passar.
Seria bom que naquela loja de alta costura ninguém se sentisse fora de moda. Nem mesmo quem prendesse nos cabelos uma flor amarela.
E no bazarzinho com roupas em liquidação por poucos reais, que nenhuma mulher perdesse sua nobreza nem seu jeito suave de ser.
Quanto a ficar sem jeito nas aulas de natação e hidroginástica, já é coisa corriqueira.
Ultimamente, homens e mulheres têm no corpo um quê de desacerto.
Surgiu um apêndice na extensão do braço ou bem junto ao colo, com formas e tamanhos desiguais.
É uma coisa assim histriônica, que mexeu com a anatomia dos que eram simplesmente constituídos de cabeça, tronco e membros.
Nem todos parecem bem adaptados. O apêndice tem autonomia. Ele baba se está com sede. Brinca de morder e às vezes morde sem brincar. Gosta de pular nas outras pessoas. Mexe no lixo. Rói móveis e porta-retratos ao alcance.Não segue horários convencionais do metabolismo humano. Tem total intolerância aos gatos. Enfim, é um apêndice que deixa em certo desacerto cabeça, tronco e membros da antiga espécie humana de Moema, que hoje tem o corpo também constituído de cachorro.
Darwin jamais imaginaria uma coisa dessas. Quem perdeu o rabo na evolução da espécie, pegou o rabo de volta. O rabo e muito mais.
Essa transformação deixa professores e instrutores sem saber o que fazer com os seus alunos de natação e hidroginástica.
É que nas piscinas cachorro não entra e os alunos se sentem deformados e incompletos.
Já se pensa em raias e áreas especiais.
Alguém deve ter feito as contas.
Os de cabeça, tronco, membros e cachorro compõem extraordinária faixa de clientes potenciais. E a tendência é de crescimento.
Mas vão permitir a entrada de pessoas com esse apêndice na piscina?
Os sábios gregos já diziam a seus discípulos que bem de direito é o bem da maioria.
Além disso, milhares de pelos de cachorro desprendidos ao dia, abririam mais ofertas de emprego aos limpadores de piscinas.
Quanto aos demais, com o corpo ainda sem cachorro, não só perdem em quantidade como já não sabem mais o que fazer de braços e colos desocupados, que provocam dolorido vazio existencial.
(miguel arcanjo terra)
É um grande Jacu em preto e branco.
Jacu. Nunca viu?
É da família das galinhas, pelo lado pobre. E dos perus e faisões, pelo lado nobre.
Cara de Jacu. Nunca viu?
É a cara de gente que caiu em tentação e ficou inadimplente depois da quinta prestação.
Cara de Jacu na Jacutinga. Nunca viu?
Às vezes passa e fica à sombra de um pé de amora, sem asas para dar o fora.
O Guia de São Paulo não informa as saídas para a inadimplência. Nem adianta pedir ao jovem que pára com um Guia à vista na mochila e vai embora depois de colher amora.
Dá um frio na barriga temer o destino erradio de dois antigos andarilhos de Moema. Eles catam bitucas no chão e pedaços de pizza no lixo. Mas, não têm medo da vida nem de gente e se viram pela Jacutinga, vira-latas.Pelo sorriso que levam no seu jeito de ser, parece que a infelicidade dos outros é o velho problema de ter.
O bom andar na Jacutinga é o andar quase parado. E contemplar sem pressa as rosas no jardim de um consultório de dentista. Onde existem rosas qualquer dor dói menos.
No ponto de táxi percebe-se que a corrida de alguns motoristas foi longe demais. Os cabelos que não caíram pelo caminho voltaram brancos. Eles riem do tempo.
Mas, seriedade e preocupação pairam sobre a mesa de um Café. Um executivo tem seu lap-top ligado nas metas do dia. Ai de quem não cumprir e, ai, como é bom andar quase parado e contemplar sem pressa todas as flores à venda numa das vitrines da Jacutinga. As que não estão à venda são amarelas e cobrem varanda e janelas de uma casa símbolo de resistência ou cheia daquela velha paciência de esperar o tempo passar.
Seria bom que naquela loja de alta costura ninguém se sentisse fora de moda. Nem mesmo quem prendesse nos cabelos uma flor amarela.
E no bazarzinho com roupas em liquidação por poucos reais, que nenhuma mulher perdesse sua nobreza nem seu jeito suave de ser.
Quanto a ficar sem jeito nas aulas de natação e hidroginástica, já é coisa corriqueira.
Ultimamente, homens e mulheres têm no corpo um quê de desacerto.
Surgiu um apêndice na extensão do braço ou bem junto ao colo, com formas e tamanhos desiguais.
É uma coisa assim histriônica, que mexeu com a anatomia dos que eram simplesmente constituídos de cabeça, tronco e membros.
Nem todos parecem bem adaptados. O apêndice tem autonomia. Ele baba se está com sede. Brinca de morder e às vezes morde sem brincar. Gosta de pular nas outras pessoas. Mexe no lixo. Rói móveis e porta-retratos ao alcance.Não segue horários convencionais do metabolismo humano. Tem total intolerância aos gatos. Enfim, é um apêndice que deixa em certo desacerto cabeça, tronco e membros da antiga espécie humana de Moema, que hoje tem o corpo também constituído de cachorro.
Darwin jamais imaginaria uma coisa dessas. Quem perdeu o rabo na evolução da espécie, pegou o rabo de volta. O rabo e muito mais.
Essa transformação deixa professores e instrutores sem saber o que fazer com os seus alunos de natação e hidroginástica.
É que nas piscinas cachorro não entra e os alunos se sentem deformados e incompletos.
Já se pensa em raias e áreas especiais.
Alguém deve ter feito as contas.
Os de cabeça, tronco, membros e cachorro compõem extraordinária faixa de clientes potenciais. E a tendência é de crescimento.
Mas vão permitir a entrada de pessoas com esse apêndice na piscina?
Os sábios gregos já diziam a seus discípulos que bem de direito é o bem da maioria.
Além disso, milhares de pelos de cachorro desprendidos ao dia, abririam mais ofertas de emprego aos limpadores de piscinas.
Quanto aos demais, com o corpo ainda sem cachorro, não só perdem em quantidade como já não sabem mais o que fazer de braços e colos desocupados, que provocam dolorido vazio existencial.
(miguel arcanjo terra)
RUA IBIJAÚ (miguel arcanjo terra)
Mesmo nestes tempos de tanta falta de coragem, ande uma noite dessas pela Ibijaú.
Pé ante pé.
Quieto.
Só você.
Uma sombra silenciosa vai passar sobre sua cabeça.
É a sombra da noite. O Ibijaú.
Esse pássaro, como tanta gente, tem hábitos noturnos, mas não é barulhento, como tanta gente.
O Ibijaú é um come-quieto da noite. Como pouca gente.
A rua Ibijaú, de dia, tem jeito do Ibijaú da noite. É uma sombra silenciosa de Moema. O desvio do desvario.
Mesmo com grandes hotéis, frente à frente, e prédios de escritórios, o silêncio da Ibijaú está nas sombras do grande pé de Pitanga ou na lenha empilhada em pequenos quintais abandonados.
Uma pilha de lenha na escuridão lembra a solidão primitiva dos homens, antes que Hera, esposa de Zeus, expulsasse do Olimpo o próprio filho Hefesto, só porque mancava de uma perna.
Hefesto, refugiado nos abismos da Terra, aprendeu lá o ofício de ferreiro. Com sua forja, fez fogo com os raios de Zeus, seu pai. E também fez Pandora, a primeira mulher mortal, com vida dada pelos deuses.
Tanta era a feiúra de seu filho, que Zeus, compadecido, lhe entregou Afrodite como esposa. E aí, sim, o fogo de Hefesto pegou de uma vez e chegou aos fornos das pizzarias.
Quem trabalha ou mora na Ibijaú, uma rua deliciosamente fora de um mundo cibernético e escalafobético, pode sentir a plena alegria de ser sem crachá.
Todos perdemos nossa essência com o contra-senso absurdo de um crachá, que nos dá uma identidade virtual e tira a real.
Não existe vida em Marte. E também não existe atrás de um crachá.
Do Largo da Matriz ao Largo da Matrix, o crachá veio aos poucos implantando a morte.
Penso, logo existo. É coisa morta.
Ser ou não ser, eis a questão. É coisa morta.
Amai ao próximo como a si mesmo. É coisa morta.
É preciso a coragem de desobedecer, de dizer não ao poder. É coisa morta.
É melhor ser muito do que ter muito. É coisa morta.
O homem não foi criado para ser coisa. É coisa morta.
A ternura é o mais belo sentimento humano. É coisa morta.
O homem reduzido a um cartão magnético deixa de ser original e criativo. É coisa morta.
A esperança é a última que morre. É coisa morta.
É impossível existir vida humana atrás de um crachá.
Mas, na Ibijaú, é possível dispensar crachás e cartões, todos esses cartões com que se chega à inadimplência, e buscar mansamente na vendinha uma lata de sardinha.
A grande arte de abrir uma lata de sardinha é a mais deliciosa provocação às futilidades de uma sociedade inconsistente.
É possível na Ibijaú, nas lingüiças penduradas do açougue, pendurar também o olhar, como um cão vadio e feliz. Basta um quilo de lingüiça para o homem se conhecer a si mesmo, dentro de si mesmo e com a plena consciência de si mesmo dentro do mundo. Contemplar um quilo de lingüiça resolve certas crises existenciais provocadas pela vaidade humana. Goethe concordaria, ele que deve ter sido um bom apreciador de lingüiça alemã.
E na locadora de livros alugar uns versos ou ter uma prosa de graça.
E nas locadoras de vídeo sentir que pelo menos num mundo de duas dimensões o controle é nosso.
Na Ibijaú, cortar o cabelo ou fazer ginástica é coisa sem frescura e se tem é só uma frescura de passagem, da sombra ou da aragem.
Naquela pracinha com bancos de tijolos aparentes tem mais sombra que gente.
E tem um recado no ar para construtores, incorporadores e outros mais ambiciosos:
Não pensem que o caminho para o céu é no sentido vertical. O caminho para o céu é no sentido horizontal. Ou como cantaria Cora Coralina:
Eu sou estas casas
Encostadas
Cochichando uma com as outras
Eu sou a ramada
Dessas árvores
Sem nome e sem valia
Sem flores e sem frutos
De que gostam a gente cansada e os pássaros vadios...
Eu sou aquele teu velho muro
Verde de avencas
Onde se debruça
Um antigo jasmineiro cheiroso
Pé ante pé.
Quieto.
Só você.
Uma sombra silenciosa vai passar sobre sua cabeça.
É a sombra da noite. O Ibijaú.
Esse pássaro, como tanta gente, tem hábitos noturnos, mas não é barulhento, como tanta gente.
O Ibijaú é um come-quieto da noite. Como pouca gente.
A rua Ibijaú, de dia, tem jeito do Ibijaú da noite. É uma sombra silenciosa de Moema. O desvio do desvario.
Mesmo com grandes hotéis, frente à frente, e prédios de escritórios, o silêncio da Ibijaú está nas sombras do grande pé de Pitanga ou na lenha empilhada em pequenos quintais abandonados.
Uma pilha de lenha na escuridão lembra a solidão primitiva dos homens, antes que Hera, esposa de Zeus, expulsasse do Olimpo o próprio filho Hefesto, só porque mancava de uma perna.
Hefesto, refugiado nos abismos da Terra, aprendeu lá o ofício de ferreiro. Com sua forja, fez fogo com os raios de Zeus, seu pai. E também fez Pandora, a primeira mulher mortal, com vida dada pelos deuses.
Tanta era a feiúra de seu filho, que Zeus, compadecido, lhe entregou Afrodite como esposa. E aí, sim, o fogo de Hefesto pegou de uma vez e chegou aos fornos das pizzarias.
Quem trabalha ou mora na Ibijaú, uma rua deliciosamente fora de um mundo cibernético e escalafobético, pode sentir a plena alegria de ser sem crachá.
Todos perdemos nossa essência com o contra-senso absurdo de um crachá, que nos dá uma identidade virtual e tira a real.
Não existe vida em Marte. E também não existe atrás de um crachá.
Do Largo da Matriz ao Largo da Matrix, o crachá veio aos poucos implantando a morte.
Penso, logo existo. É coisa morta.
Ser ou não ser, eis a questão. É coisa morta.
Amai ao próximo como a si mesmo. É coisa morta.
É preciso a coragem de desobedecer, de dizer não ao poder. É coisa morta.
É melhor ser muito do que ter muito. É coisa morta.
O homem não foi criado para ser coisa. É coisa morta.
A ternura é o mais belo sentimento humano. É coisa morta.
O homem reduzido a um cartão magnético deixa de ser original e criativo. É coisa morta.
A esperança é a última que morre. É coisa morta.
É impossível existir vida humana atrás de um crachá.
Mas, na Ibijaú, é possível dispensar crachás e cartões, todos esses cartões com que se chega à inadimplência, e buscar mansamente na vendinha uma lata de sardinha.
A grande arte de abrir uma lata de sardinha é a mais deliciosa provocação às futilidades de uma sociedade inconsistente.
É possível na Ibijaú, nas lingüiças penduradas do açougue, pendurar também o olhar, como um cão vadio e feliz. Basta um quilo de lingüiça para o homem se conhecer a si mesmo, dentro de si mesmo e com a plena consciência de si mesmo dentro do mundo. Contemplar um quilo de lingüiça resolve certas crises existenciais provocadas pela vaidade humana. Goethe concordaria, ele que deve ter sido um bom apreciador de lingüiça alemã.
E na locadora de livros alugar uns versos ou ter uma prosa de graça.
E nas locadoras de vídeo sentir que pelo menos num mundo de duas dimensões o controle é nosso.
Na Ibijaú, cortar o cabelo ou fazer ginástica é coisa sem frescura e se tem é só uma frescura de passagem, da sombra ou da aragem.
Naquela pracinha com bancos de tijolos aparentes tem mais sombra que gente.
E tem um recado no ar para construtores, incorporadores e outros mais ambiciosos:
Não pensem que o caminho para o céu é no sentido vertical. O caminho para o céu é no sentido horizontal. Ou como cantaria Cora Coralina:
Eu sou estas casas
Encostadas
Cochichando uma com as outras
Eu sou a ramada
Dessas árvores
Sem nome e sem valia
Sem flores e sem frutos
De que gostam a gente cansada e os pássaros vadios...
Eu sou aquele teu velho muro
Verde de avencas
Onde se debruça
Um antigo jasmineiro cheiroso
AVENIDA ROUXINOL
Nenhum menino passarinho ouviu o Rouxinol em Moema.
E se por acaso ouviu, foi canto da saudade.
--- Lembrança canta dentro da gente igual Rouxinol, falou certa tarde, com arrastado sotaque e voz trêmula, o mais velho tintureiro de Moema. Ele veio do Japão.
O Rouxinol é passarinho de meninos da Ásia e da Europa. Eles chegaram há tempos por aqui. E se havia na viagem um passarinho na gaiola, fez um buraquinho e voou, voou, voou.
A cavalo no campo e, de repente, quieto, o Rouxinol. Visões de Matsuo Bashô, no seu diário de viagem, com os mais sutis versos do Haiku.
Nosso Rouxinol é o Corrupião e não tem placa de rua em Moema.
O Corrupião, alegre assobiador, é brasileiro nato, e canta o canto de qualquer outro passarinho. E é assim que qualquer brasileiro se vira quando lhe falta o dom. Ele pega um dom emprestado e entra no tom.E pode ser o tom de qualquer prosa, seja em cadeiras na calçada da padaria in ou nos balcões da padaria out, com cheiro de pão na chapa, à moda antiga.
Na Rouxinol, o tom muda de número em número.
Ora, empanadas argentinas.
Ora, uma casa de sopa, creme e geléia.
Ora, um café franqueado.
Atenção, cuidado, que vem no meio da rua um puxador de carroça na contramão, atrapalhando o tráfego.
Ah, essa porção de brasileiros que anda na contramão da Rouxinol, qual é o poder abaixo de Deus que pode mudar o seu destino?
Gente também é bicho, dá vontade de dizer para o jovem que defende o Mico Leão Dourado e busca a vida selvagem numa loja de roupas estilo jump. Ou para aquela mulher que sai com seu cachorro perfumado de um pet-shop.
Perfumes, cosméticos, moda, a vida é feminina.
E o puxador de carroça passa.
Lojas de pedras, estátuas e fontes artificiais para os jardins.
E o puxador de carroça passa.
Sobrados geminados que viraram lojas de decoração, clinicas veterinárias, clínicas dentárias, butiques, modos chiques.
E o puxador de carroça passa.
Um prédio de apartamentos imenso como o Edifício Copan, talvez sem tantas histórias nem poesia.
E o puxador de carroça passa.
A produtora de filmes e vídeos, o conjunto de escritórios que não reflete luz porque lhe falta brancura, a mercearia cheia de frescura.
E o puxador de carroça passa.
O açougue da esquina.
A carne é vermelha.
E o puxador de carroça pára.
A carne é fraca.
Fica com os olhos vidrados num belo pedaço. Ele não é de ferro nem de aço.
Escorre saliva dos cantos da boca.
A fome é molhada.
A sede é que é seca. Ele também é de uma secura que só Deus segura.
Então, vai embora, mas antes cospe a saliva na porta.
Ninguém se importa.
É bom lembrar que água na boca que vem com a fome, às vezes é o sinal de quem vai morder o mundo daqui a pouco como um cachorro louco.
(miguel arcanjo terra)
E se por acaso ouviu, foi canto da saudade.
--- Lembrança canta dentro da gente igual Rouxinol, falou certa tarde, com arrastado sotaque e voz trêmula, o mais velho tintureiro de Moema. Ele veio do Japão.
O Rouxinol é passarinho de meninos da Ásia e da Europa. Eles chegaram há tempos por aqui. E se havia na viagem um passarinho na gaiola, fez um buraquinho e voou, voou, voou.
A cavalo no campo e, de repente, quieto, o Rouxinol. Visões de Matsuo Bashô, no seu diário de viagem, com os mais sutis versos do Haiku.
Nosso Rouxinol é o Corrupião e não tem placa de rua em Moema.
O Corrupião, alegre assobiador, é brasileiro nato, e canta o canto de qualquer outro passarinho. E é assim que qualquer brasileiro se vira quando lhe falta o dom. Ele pega um dom emprestado e entra no tom.E pode ser o tom de qualquer prosa, seja em cadeiras na calçada da padaria in ou nos balcões da padaria out, com cheiro de pão na chapa, à moda antiga.
Na Rouxinol, o tom muda de número em número.
Ora, empanadas argentinas.
Ora, uma casa de sopa, creme e geléia.
Ora, um café franqueado.
Atenção, cuidado, que vem no meio da rua um puxador de carroça na contramão, atrapalhando o tráfego.
Ah, essa porção de brasileiros que anda na contramão da Rouxinol, qual é o poder abaixo de Deus que pode mudar o seu destino?
Gente também é bicho, dá vontade de dizer para o jovem que defende o Mico Leão Dourado e busca a vida selvagem numa loja de roupas estilo jump. Ou para aquela mulher que sai com seu cachorro perfumado de um pet-shop.
Perfumes, cosméticos, moda, a vida é feminina.
E o puxador de carroça passa.
Lojas de pedras, estátuas e fontes artificiais para os jardins.
E o puxador de carroça passa.
Sobrados geminados que viraram lojas de decoração, clinicas veterinárias, clínicas dentárias, butiques, modos chiques.
E o puxador de carroça passa.
Um prédio de apartamentos imenso como o Edifício Copan, talvez sem tantas histórias nem poesia.
E o puxador de carroça passa.
A produtora de filmes e vídeos, o conjunto de escritórios que não reflete luz porque lhe falta brancura, a mercearia cheia de frescura.
E o puxador de carroça passa.
O açougue da esquina.
A carne é vermelha.
E o puxador de carroça pára.
A carne é fraca.
Fica com os olhos vidrados num belo pedaço. Ele não é de ferro nem de aço.
Escorre saliva dos cantos da boca.
A fome é molhada.
A sede é que é seca. Ele também é de uma secura que só Deus segura.
Então, vai embora, mas antes cospe a saliva na porta.
Ninguém se importa.
É bom lembrar que água na boca que vem com a fome, às vezes é o sinal de quem vai morder o mundo daqui a pouco como um cachorro louco.
(miguel arcanjo terra)
RUA JURITI
Quando canta a Juriti dói bem aqui.
Nem é canto, é um arrulho.
Tristeza e ternura.
E bate uma saudade de chuva mansa, barulho no telhado, cantiga de mãe, vontade de ser criança e dormir.
Dor de chuva é dor enrustida que pega mais os que se perderam de seu destino. E se a alma é desgarrada, nem adianta tocar o sino.
A loja de óculos?
Pois, não, é logo ali.
Mas, pra que trocar os óculos se os olhos é que estão embaçados?
Quando a vida pega tanto no pé da gente, que culpa temos das mancadas?
Mas, é bom disfarçar na academia de musculação.
Em dia de chuva, dói mais aqui quando canta a Juriti.
Boa hora pra se lavar a alma.
Apanhe na papelaria umas folhas em branco. Escreva tudo o que lhe der na telha. Que apareçam todos os demônios e não importa que venham sem pé nem cabeça, com erros de concordância, grafia, pontuação. Escreva, escreva e faça bolinhas de papel com cada folha. Uma a uma, deixe-as na enxurrada, num descarrego para que se desfaçam os pesadelos.
Em dia de chuva tem outra opção: ficar no balcão da padaria com o queixo na mão.
Mas, tudo passa, tudo passará. A chuva, também.
E sob o Sol da Juriti as árvores passeiam com o vento, magníficas. Imponentes na frente de casas e prédios, elas adentram o Colégio NS Aparecida e deixam verde e criança o nosso olhar sem pecados concebido.
Sob o Sol da Juriti dá vontade de ser palhaço numa festa de aniversário no buffet infantil e, entre crianças, aliviar a alma, que às vezes fica pesada de dívidas e dúvidas com o próximo.
As dúvidas não incomodam tanto.
Mas, as dívidas, ah, as dívidas.
O carro importado, quem mais se importa com ele, além do banco?
O status passa, a merca fica.
O novo apartamento, sabe quem mora em cima? Sabe quem mora embaixo? Todo mundo sabe, já perdeu a graça e se paga tanto por tanta falta de graça.
A decoração assinada pelo mais colunável dos profissionais, olhe só o seu dinheiro no sorriso dele na foto, e não se percebe mais nada do que ele fez em sua casa, porque todos andam com os olhares caídos num vazio profundo.
Por isso é que dói bem aqui quando canta a Juriti.
E chove.
(miguel arcanjo terra)
Nem é canto, é um arrulho.
Tristeza e ternura.
E bate uma saudade de chuva mansa, barulho no telhado, cantiga de mãe, vontade de ser criança e dormir.
Dor de chuva é dor enrustida que pega mais os que se perderam de seu destino. E se a alma é desgarrada, nem adianta tocar o sino.
A loja de óculos?
Pois, não, é logo ali.
Mas, pra que trocar os óculos se os olhos é que estão embaçados?
Quando a vida pega tanto no pé da gente, que culpa temos das mancadas?
Mas, é bom disfarçar na academia de musculação.
Em dia de chuva, dói mais aqui quando canta a Juriti.
Boa hora pra se lavar a alma.
Apanhe na papelaria umas folhas em branco. Escreva tudo o que lhe der na telha. Que apareçam todos os demônios e não importa que venham sem pé nem cabeça, com erros de concordância, grafia, pontuação. Escreva, escreva e faça bolinhas de papel com cada folha. Uma a uma, deixe-as na enxurrada, num descarrego para que se desfaçam os pesadelos.
Em dia de chuva tem outra opção: ficar no balcão da padaria com o queixo na mão.
Mas, tudo passa, tudo passará. A chuva, também.
E sob o Sol da Juriti as árvores passeiam com o vento, magníficas. Imponentes na frente de casas e prédios, elas adentram o Colégio NS Aparecida e deixam verde e criança o nosso olhar sem pecados concebido.
Sob o Sol da Juriti dá vontade de ser palhaço numa festa de aniversário no buffet infantil e, entre crianças, aliviar a alma, que às vezes fica pesada de dívidas e dúvidas com o próximo.
As dúvidas não incomodam tanto.
Mas, as dívidas, ah, as dívidas.
O carro importado, quem mais se importa com ele, além do banco?
O status passa, a merca fica.
O novo apartamento, sabe quem mora em cima? Sabe quem mora embaixo? Todo mundo sabe, já perdeu a graça e se paga tanto por tanta falta de graça.
A decoração assinada pelo mais colunável dos profissionais, olhe só o seu dinheiro no sorriso dele na foto, e não se percebe mais nada do que ele fez em sua casa, porque todos andam com os olhares caídos num vazio profundo.
Por isso é que dói bem aqui quando canta a Juriti.
E chove.
(miguel arcanjo terra)
RUA CANÁRIO
Manhãs cor de canário. Brincar de amarelinha, abrir as asas, fugir da gaiola.
Não dar bola, ir embora, céu afora.
Deixar uma porção de ontem, apanhar uma porção de agora.
Manhãs cor de canário.
Bater pernas, sem hora, nada de gente que cola. Isola.
Ser um. Sem par. Amar.
Soltar-se na brisa como a folha que cai.
Que cor é aquela da casa 449?
Por que a cor de vinho da Brasília na garagem?
Que paragem é essa num tempo que sempre se move em Moema?
Um pouco do velho mundo fica no lugar. E um canário canta. Velho como as Ilhas Canárias, Açores, Ilha da Madeira, em Moema o canário descobriu a América.
E em Moema, o ovo em pé de Colombo virou omelete, crepe suzete, pudins, quindins, em tantas padarias que não são mais dos Joaquins.
O forno e o fogão estão sob direção de uma nova geração.
Assim como o ão do Estadão, na Canário tudo é ão.
Carrão na contramão. Lá vem palavrão.
Na padaria, passam manteiga no pão.
No empório, pesam o parmesão.
No portão da tarde, encosta a pança o bonachão.
Nos muros de pedra, solidão.
Nos muros verdes de unha de gato voa um zangão.
Na floricultura, pedem Coração de Leão.
Nas paredes espelhadas do restaurante, passa um avião.
Na casa de massas, mãos se esticam em mutirão.
Nas maisons só tem mandão.
Nos bares e restaurantes fechados e lacrados colam um papelão.
Sob o pé de pêssego do pequeno quintal, deixam um furgão.
Na oficina de consertos de roupas nada se faz sem dedal e sem dedão.
Na rotisserie, assam empadão.
No bureau de artes gráficas, espera-se uma boa impressão.
Nas butiques, sacam o cartão.
No berçário, acorda um chorão.
No Cyber Café entra um executivo fora de mão.
Na Loteca, bolão.
Na bela loja feminina de bolsas e calçados, não entra sapatão.
Na pizzaria, cheiro de manjericão.
Na sorveteria, um menino pidão.
Na loja infantil, o mesmo menino leva um beliscão.
Na locadora de livros, entra um solteirão.
Tardes e manhãs cor de canário.
Não dar bola, ir embora, céu afora.
Deixar uma porção de ontem, apanhar uma porção de agora.
Manhãs cor de canário.
Bater pernas, sem hora, nada de gente que cola. Isola.
Ser um. Sem par. Amar.
Soltar-se na brisa como a folha que cai.
Que cor é aquela da casa 449?
Por que a cor de vinho da Brasília na garagem?
Que paragem é essa num tempo que sempre se move em Moema?
Um pouco do velho mundo fica no lugar. E um canário canta. Velho como as Ilhas Canárias, Açores, Ilha da Madeira, em Moema o canário descobriu a América.
E em Moema, o ovo em pé de Colombo virou omelete, crepe suzete, pudins, quindins, em tantas padarias que não são mais dos Joaquins.
O forno e o fogão estão sob direção de uma nova geração.
Assim como o ão do Estadão, na Canário tudo é ão.
Carrão na contramão. Lá vem palavrão.
Na padaria, passam manteiga no pão.
No empório, pesam o parmesão.
No portão da tarde, encosta a pança o bonachão.
Nos muros de pedra, solidão.
Nos muros verdes de unha de gato voa um zangão.
Na floricultura, pedem Coração de Leão.
Nas paredes espelhadas do restaurante, passa um avião.
Na casa de massas, mãos se esticam em mutirão.
Nas maisons só tem mandão.
Nos bares e restaurantes fechados e lacrados colam um papelão.
Sob o pé de pêssego do pequeno quintal, deixam um furgão.
Na oficina de consertos de roupas nada se faz sem dedal e sem dedão.
Na rotisserie, assam empadão.
No bureau de artes gráficas, espera-se uma boa impressão.
Nas butiques, sacam o cartão.
No berçário, acorda um chorão.
No Cyber Café entra um executivo fora de mão.
Na Loteca, bolão.
Na bela loja feminina de bolsas e calçados, não entra sapatão.
Na pizzaria, cheiro de manjericão.
Na sorveteria, um menino pidão.
Na loja infantil, o mesmo menino leva um beliscão.
Na locadora de livros, entra um solteirão.
Tardes e manhãs cor de canário.
RUA INHAMBU
O Inhambu parece um frangote.
Mas, ai, que lhe falta o rabo --- observou o primeiro conquistador português que o avistou atrás da moita.
Com tanto rabo preso por aí, isso é uma vantagem.
Quem tem ou já teve o rabo preso, sabe muito bem do que se trata.
Rabo preso ou rabo entre as pernas é quase a mesma coisa.
Que bom ser Inhambu e jamais andar com o rabo em perigo.
Inhambu Xitã ou Xororó.
Que bom, conforme as circunstâncias, ficar na moita de vez em quando.
Vale até como terapia em nossa insensatez.
Embora não exista moita na rua Inhambu nem psicoterapeuta que a recomende, trata-se de um ponto de equilíbrio para homens e mulheres antes do bronzeamento artificial no próximo quarteirão.
O bem que faz ficar na moita e a alegria de sair, só Freud explica.
Tudo fica diferente quando a gente volta a ser gente.
É gostoso entrar no pet-shop com a plena certeza de que se um cachorro morder você, você não vai morder o cachorro.
Que bom passar na loja de roupas para crianças e não sentir mais falta do colo da mãe.
Na Inhambu, sair da moita significa procurar a esquina onde está estacionada a velha Kombi azul do vendedor de flores e comprar vasinhos de violetas, margaridas, crisântemos e torcer com ele para que o fiscal da Prefeitura nunca saia da moita.
No cabeleireiro da Inhambu é bom saber que a dor de cotovelo já passou, tudo passa, e ela ficou mais linda.
Que bom é sair da moita como um homem senhor de si, não mais cara-pálida, e no açougue mostrar-se expert em picanha, com toda a segurança, boca firme e seca. Só os carentes é que babam.
Na ida e vinda do Cooper, no sobe e desce da rua, os conselhos de um velhinho, que estava à porta da casa de chocolate fundada em 1.928:
---Se você está prestes a entrar na moita ou acabou de sair, disfarce, endireite a coluna, erga a cabeça e não deixe a impressão de que vai cair de quatro no próximo passo. Também desvie o olhar das cortinas, persianas e sofás em oferta na Inhambu. Essas peças tentam a gente a ficar na moita.
Não se impressione com o vazio daquele prédio comercial de tijolos aparentes. Todos de lá, não se sabe quantos, entraram na moita sem passar o ponto. Não há previsão de saída. Se você sentir um vazio no seu estômago, não ligue. É só uma projeção psicológica, uma questão oral-receptiva, que é o medo de passar fome, morrer à mingua. Vazio no estômago analista cura e não tem nada a ver com estômago vazio. Eu Só Quero Chocolate. Cante com Tim Maia, apanhe sua sacola de roupas sujas e passe na lavanderia. Depois, deixe o carro no lava-rápido. Siga a pé e tente localizar uma imensa figueira na Inhambu. Se você não encontrar, pergunte às pessoas que freqüentam o boulevard, as butiques, a loja de tapetes, enfim, suba e desça a Inhambu de ponto a ponto. Se você não descobrir a figueira nem sua sombra generosa, eu garanto uma coisa: você vai se descobrir a si mesmo fora da moita. E isso é tão gostoso como chocolate.
Sábio velhinho.
Mas, ai, que lhe falta o rabo --- observou o primeiro conquistador português que o avistou atrás da moita.
Com tanto rabo preso por aí, isso é uma vantagem.
Quem tem ou já teve o rabo preso, sabe muito bem do que se trata.
Rabo preso ou rabo entre as pernas é quase a mesma coisa.
Que bom ser Inhambu e jamais andar com o rabo em perigo.
Inhambu Xitã ou Xororó.
Que bom, conforme as circunstâncias, ficar na moita de vez em quando.
Vale até como terapia em nossa insensatez.
Embora não exista moita na rua Inhambu nem psicoterapeuta que a recomende, trata-se de um ponto de equilíbrio para homens e mulheres antes do bronzeamento artificial no próximo quarteirão.
O bem que faz ficar na moita e a alegria de sair, só Freud explica.
Tudo fica diferente quando a gente volta a ser gente.
É gostoso entrar no pet-shop com a plena certeza de que se um cachorro morder você, você não vai morder o cachorro.
Que bom passar na loja de roupas para crianças e não sentir mais falta do colo da mãe.
Na Inhambu, sair da moita significa procurar a esquina onde está estacionada a velha Kombi azul do vendedor de flores e comprar vasinhos de violetas, margaridas, crisântemos e torcer com ele para que o fiscal da Prefeitura nunca saia da moita.
No cabeleireiro da Inhambu é bom saber que a dor de cotovelo já passou, tudo passa, e ela ficou mais linda.
Que bom é sair da moita como um homem senhor de si, não mais cara-pálida, e no açougue mostrar-se expert em picanha, com toda a segurança, boca firme e seca. Só os carentes é que babam.
Na ida e vinda do Cooper, no sobe e desce da rua, os conselhos de um velhinho, que estava à porta da casa de chocolate fundada em 1.928:
---Se você está prestes a entrar na moita ou acabou de sair, disfarce, endireite a coluna, erga a cabeça e não deixe a impressão de que vai cair de quatro no próximo passo. Também desvie o olhar das cortinas, persianas e sofás em oferta na Inhambu. Essas peças tentam a gente a ficar na moita.
Não se impressione com o vazio daquele prédio comercial de tijolos aparentes. Todos de lá, não se sabe quantos, entraram na moita sem passar o ponto. Não há previsão de saída. Se você sentir um vazio no seu estômago, não ligue. É só uma projeção psicológica, uma questão oral-receptiva, que é o medo de passar fome, morrer à mingua. Vazio no estômago analista cura e não tem nada a ver com estômago vazio. Eu Só Quero Chocolate. Cante com Tim Maia, apanhe sua sacola de roupas sujas e passe na lavanderia. Depois, deixe o carro no lava-rápido. Siga a pé e tente localizar uma imensa figueira na Inhambu. Se você não encontrar, pergunte às pessoas que freqüentam o boulevard, as butiques, a loja de tapetes, enfim, suba e desça a Inhambu de ponto a ponto. Se você não descobrir a figueira nem sua sombra generosa, eu garanto uma coisa: você vai se descobrir a si mesmo fora da moita. E isso é tão gostoso como chocolate.
Sábio velhinho.
RUA GAIVOTA
Nas manhãs de sol bate uma brisa na Gaivota que não vem do mar, mas deixa a alma leve pra voar.
O mistério da felicidade rima com simplicidade e nessa rima à toa a gente voa, alma leve de Gaivota.
Vôo livre do olhar.
A gente até sonha que além dos prédios cercados por coqueiros e palmeiras fica o mar.
Mas, a algazarra dos bandos de periquitos põe o pensamento no lugar e a Gaivota passa a ser apenas o nome de uma rua singular.
O homem puxa a carroça, o cão segue atrás, os dois vira-latas.
Dói um pouco esse contraste.
Mas se o céu é azul na Gaivota e a brisa bate na rua, talvez Deus perdoe quem lava as mãos depois de pendurar em seu açougue uma tira de lingüiça que batizou de artesanal.
A vida é assim: não existe amor por inteiro, existe amor aos pedaços, mesmo que seja nome de confeitaria.
A Gaivota passa por cima dos desencontros e talvez o destino mude magicamente na loja de amuletos ou na loja de calçados. As cinderelas, às vezes, esquecem nas academias de ginástica o sapatinho de cristal. E os príncipes não sabem o que fazer na floricultura. Em mesas cobertas com toalhas azuis do restaurante da esquina eles esperam solitários o aviso do garçom de que é proibido fumar.
Ainda bem que existem manhãs de sol e é possível acreditar com a criança que atravessa a rua, de mãos dadas com a mãe, que a vida também é uma escola risonha e franca, sem azares de espelhos quebrados que enfeitavam as paredes de uma loja que fechou.
Em Moema, também se passa o ponto.
E se passa do ponto de exclamação para o ponto final assim sem muita reticência.
Nessa impermanência, o dono da loja de uniformes esquece toda a liberdade de ser diferente e torce para que continuem a uniformizar o mundo.
E torcem na loja de cães para que nenhum dono se perca no mundo e não caia o movimento de banho, tosa, hotel, veterinário.
Enfim, o azul do mar está pintado naquele edifício diferente de todos.
E dá vontade de ser zen na casa de sushi. É fácil. Basta resolver este koan: O que deixa a gente mais pobre? Um pé de limão rosa ou aquele carro importado na loja?
O pé de limão e o carro criam na Gaivota mais um contraste e o bucólico se destaca. É que o pé de limão secou e o portão de ferro da velha casa pegou ferrugem e se não fossem as flores do pé de pitanga o silêncio do quintal doeria muito mais.
Mas, existe um fim de rua de singelos portões e jardins e as casas não ameaçadas de extinção devolvem o brilho do olhar. E as mulheres buscam malhas que tenham um certo aperto e as crianças escolhem sapatos e tênis com alguma folga e as vovós vão ao mini-mercado preencher os vazios do dia e os jovens ou compram a camiseta em oferta na loja ou vão passear no boulevard.
No fim de tudo, sobra a serenidade de majestosa mangueira na esquina da Gaivota com a Cotovia. E ela deixa a mensagem de que suas sombras varrem a calçada, mas não levantam pó.
O mistério da felicidade rima com simplicidade e nessa rima à toa a gente voa, alma leve de Gaivota.
Vôo livre do olhar.
A gente até sonha que além dos prédios cercados por coqueiros e palmeiras fica o mar.
Mas, a algazarra dos bandos de periquitos põe o pensamento no lugar e a Gaivota passa a ser apenas o nome de uma rua singular.
O homem puxa a carroça, o cão segue atrás, os dois vira-latas.
Dói um pouco esse contraste.
Mas se o céu é azul na Gaivota e a brisa bate na rua, talvez Deus perdoe quem lava as mãos depois de pendurar em seu açougue uma tira de lingüiça que batizou de artesanal.
A vida é assim: não existe amor por inteiro, existe amor aos pedaços, mesmo que seja nome de confeitaria.
A Gaivota passa por cima dos desencontros e talvez o destino mude magicamente na loja de amuletos ou na loja de calçados. As cinderelas, às vezes, esquecem nas academias de ginástica o sapatinho de cristal. E os príncipes não sabem o que fazer na floricultura. Em mesas cobertas com toalhas azuis do restaurante da esquina eles esperam solitários o aviso do garçom de que é proibido fumar.
Ainda bem que existem manhãs de sol e é possível acreditar com a criança que atravessa a rua, de mãos dadas com a mãe, que a vida também é uma escola risonha e franca, sem azares de espelhos quebrados que enfeitavam as paredes de uma loja que fechou.
Em Moema, também se passa o ponto.
E se passa do ponto de exclamação para o ponto final assim sem muita reticência.
Nessa impermanência, o dono da loja de uniformes esquece toda a liberdade de ser diferente e torce para que continuem a uniformizar o mundo.
E torcem na loja de cães para que nenhum dono se perca no mundo e não caia o movimento de banho, tosa, hotel, veterinário.
Enfim, o azul do mar está pintado naquele edifício diferente de todos.
E dá vontade de ser zen na casa de sushi. É fácil. Basta resolver este koan: O que deixa a gente mais pobre? Um pé de limão rosa ou aquele carro importado na loja?
O pé de limão e o carro criam na Gaivota mais um contraste e o bucólico se destaca. É que o pé de limão secou e o portão de ferro da velha casa pegou ferrugem e se não fossem as flores do pé de pitanga o silêncio do quintal doeria muito mais.
Mas, existe um fim de rua de singelos portões e jardins e as casas não ameaçadas de extinção devolvem o brilho do olhar. E as mulheres buscam malhas que tenham um certo aperto e as crianças escolhem sapatos e tênis com alguma folga e as vovós vão ao mini-mercado preencher os vazios do dia e os jovens ou compram a camiseta em oferta na loja ou vão passear no boulevard.
No fim de tudo, sobra a serenidade de majestosa mangueira na esquina da Gaivota com a Cotovia. E ela deixa a mensagem de que suas sombras varrem a calçada, mas não levantam pó.
RUA PAVÃO
Ah, se os jovens da rua Pavão pavoneassem com uma cauda de longas penas.
Ah, se eles a erguessem num grande leque vertical e assim atraíssem as garotas para um vai-e-vem colorido.
Mas, falta aos jovens a altivez natural do Pavão.
Tatuagens, brincos, piercings e bíceps bombeados não engrandecem a postura. Só lembram impostura. E não têm nenhum poder de sedução, pela mesma vulgaridade que faz tantos pardais tão iguais.
Por que não diferenciar o corpo e o espírito por caminhos transcendentais? Mansos, o corpo e o espírito são irresistíveis e incomparáveis.
Por que as garotas não preenchem o vazio de tantas floreiras nas varandas e criam na Pavão jardins suspensos da Babilônia?
Existem lojas de vasos e flores pertinho de quem tem olhos para ver.
E ai de quem não viu além da escuridão de seus óculos escuros as flores de Manacá da Pavão. Ficam lindas as mulheres que pegam nas lojas a cor lilás das flores de Manacá e se vestem dela num dia de sol.
Em moda fina ou pret-a-porter o lilás lembra a paz de descer caminhos da Serra do Mar ao encontro do primeiro amor da adolescência. Nessa visão da inocência, nada se perde e a alma se transforma, fica meio sonho de confeitaria, meio pão com manteiga da padaria, meio porcelana, meio pedra preciosa, entra no reino das crianças, sente saudade da comida de casa, papai-mamãe, descarta por uns tempos os alimentos práticos, os espelhos dos hair-centers e contempla amorosamente uma casa antiga da pequena Arapari, uma rua atravessada na Pavão.
Pavonear na Pavão.
Experimente, depois de uma chuva de verão, quando o Sol brilha nas folhas molhadas das árvores.
Quem sabe você encontra uma mulher vestida de lilás, sob nuvens brancas paradas no ar. Quem sabe ela já está esperando você.
(miguel arcanjo terra)
Ah, se eles a erguessem num grande leque vertical e assim atraíssem as garotas para um vai-e-vem colorido.
Mas, falta aos jovens a altivez natural do Pavão.
Tatuagens, brincos, piercings e bíceps bombeados não engrandecem a postura. Só lembram impostura. E não têm nenhum poder de sedução, pela mesma vulgaridade que faz tantos pardais tão iguais.
Por que não diferenciar o corpo e o espírito por caminhos transcendentais? Mansos, o corpo e o espírito são irresistíveis e incomparáveis.
Por que as garotas não preenchem o vazio de tantas floreiras nas varandas e criam na Pavão jardins suspensos da Babilônia?
Existem lojas de vasos e flores pertinho de quem tem olhos para ver.
E ai de quem não viu além da escuridão de seus óculos escuros as flores de Manacá da Pavão. Ficam lindas as mulheres que pegam nas lojas a cor lilás das flores de Manacá e se vestem dela num dia de sol.
Em moda fina ou pret-a-porter o lilás lembra a paz de descer caminhos da Serra do Mar ao encontro do primeiro amor da adolescência. Nessa visão da inocência, nada se perde e a alma se transforma, fica meio sonho de confeitaria, meio pão com manteiga da padaria, meio porcelana, meio pedra preciosa, entra no reino das crianças, sente saudade da comida de casa, papai-mamãe, descarta por uns tempos os alimentos práticos, os espelhos dos hair-centers e contempla amorosamente uma casa antiga da pequena Arapari, uma rua atravessada na Pavão.
Pavonear na Pavão.
Experimente, depois de uma chuva de verão, quando o Sol brilha nas folhas molhadas das árvores.
Quem sabe você encontra uma mulher vestida de lilás, sob nuvens brancas paradas no ar. Quem sabe ela já está esperando você.
(miguel arcanjo terra)
RUA GRAÚNA
Um pássaro negro.
Graúna.
Pássaro encantado de bom agouro que não se vê mais.
Primaveras e Ipês enchem a rua de flores e cores, mas da Graúna sobraram apenas sombras de pardais.
Talvez a Graúna voou para o mesmo silêncio onde já devem estar aqueles que consagram seu nome numa placa de rua. Lá não se dá nem um pio.
A rua Graúna é um pedaço de caminho que traz uma saudade estranha, não sei de que.
Dá assim uma vontade de ficar à sombra do imenso pé de pitanga, que é um verso na frente daquela casa e a esconde dos demolidores que chegam a Moema com seus tratores.
Essa saudade não sei de que na Graúna quem sabe seja a mesma que a gente sente ao ver fotos em preto e branco num velho álbum de família.
Na Graúna ainda existem reservas especiais de suaves sombras e contrastes, em sobradinhos onde é possível que um casal de velhinhos, da safra de 1.930, se debruce na janela.
Abre a janela Maria que é dia
Abre a janela que o sol já raiou
Os passarinhos fizeram seu ninho
Na janela do seu bangalô
Na Graúna dá vontade de buscar canções perdidas no tempo. E cantar.
É uma rua onde a saudade brinca de esconde-esconde e às vezes está atrás de um portão ou enveredada vila adentro, essas vilas surpreendentes em ruas de Moema, onde as pessoas entram e saem de si sem que o vizinho se incomode.
Quem ainda não caminhou pela Graúna, que dê o primeiro passo e saia do desencanto. Porque nada é mais sem graça do que andar desencantado pela vida.
Graúna.
Pássaro encantado de bom agouro que não se vê mais.
Primaveras e Ipês enchem a rua de flores e cores, mas da Graúna sobraram apenas sombras de pardais.
Talvez a Graúna voou para o mesmo silêncio onde já devem estar aqueles que consagram seu nome numa placa de rua. Lá não se dá nem um pio.
A rua Graúna é um pedaço de caminho que traz uma saudade estranha, não sei de que.
Dá assim uma vontade de ficar à sombra do imenso pé de pitanga, que é um verso na frente daquela casa e a esconde dos demolidores que chegam a Moema com seus tratores.
Essa saudade não sei de que na Graúna quem sabe seja a mesma que a gente sente ao ver fotos em preto e branco num velho álbum de família.
Na Graúna ainda existem reservas especiais de suaves sombras e contrastes, em sobradinhos onde é possível que um casal de velhinhos, da safra de 1.930, se debruce na janela.
Abre a janela Maria que é dia
Abre a janela que o sol já raiou
Os passarinhos fizeram seu ninho
Na janela do seu bangalô
Na Graúna dá vontade de buscar canções perdidas no tempo. E cantar.
É uma rua onde a saudade brinca de esconde-esconde e às vezes está atrás de um portão ou enveredada vila adentro, essas vilas surpreendentes em ruas de Moema, onde as pessoas entram e saem de si sem que o vizinho se incomode.
Quem ainda não caminhou pela Graúna, que dê o primeiro passo e saia do desencanto. Porque nada é mais sem graça do que andar desencantado pela vida.
AVENIDA SABIÁ (miguel arcanjo terra)
Apolo deixou nas laranjeiras uma pequena porção das delícias do Olimpo.
E deixou no canto do Sabiá um pouco da música dos deuses.
Em quintais singelos, consagrou essa união.
Sabiá Laranjeira.
Quem ouve seu canto em Moema é tocado pelo Deus Grego da Harmonia.
E se às vezes o canto dói ou incomoda é porque alguma coisa está fora do Tom Jobim.
Na harmonia do Tom Jobim, o Sol de Apolo é o mesmo que o Sabiá consagra com seu canto à beleza e à força de um amanhecer.
Ah, se as pessoas aprendessem a amanhecer. Mas, elas apenas entardecem.
O canto do Sabiá --- mesmo os que cantam fora de hora, iludidos pela claridade artificial de Moema --- é um elo para quem se perdeu dos deuses e dos heróis que ainda freqüentam o porão de nosso espírito, onde cortaram a luz.
Aquele que perguntar Quem Sou Eu no mesmo instante em que o Sabiá cantar, talvez não encontre a resposta, mas vai resvalar na parte obscura de nossa eternidade --- e vai se arrepiar.
É a mesma eternidade que pousa cambiante com o canto do Sabiá em tantas nuanças daquele jardim de rosas da casa 184 (meu Deus, tomara que ela ainda esteja lá).
Ouça o Sabiá e questione: Quem Sou Eu?
Questione em seguida que importância pode ter na eternidade a falta de tempo para uma depilação a laser.
E que importância tem quebrar uma taça de cristal comprada há pouco na loja de tantos brilhos efêmeros?
Não chore pelo vinho derramado.
Quando o Sabiá canta, acredite no milagre da multiplicação. O Sol de Apolo garante. Mesmo que haja sombras nos interiores de tantas igrejas e de tantas almas tão diferentes uma das outras e, no entanto, tão iguais. Mesmo que unhas de gato tornem intransponível o muro de um quarteirão inteiro e vozes adolescentes de colegiais tragam sonhos que tantos sonharam na hora do recreio.
Os ecos do canto do Sabiá preenchem o vazio das janelas de antigos sobrados que lembram laranja madura colhida no pé.E lembram pés de camomila e hortelã dos quintais, quando se fazia chá até para dor de cotovelo e nenhum dos vizinhos sabia explicar nem ouvia falar de tratamentos estranhos que vieram depois.
O que é shiatsu?
O que é catsu?
Os velhinhos da Sabiá só sabem a resposta da segunda pergunta. Justo eles que sabiam tantas coisas e nos sinais de fumaça do domingo passavam a mensagem de que depois do churrasco iriam todos assistir numa pequena tela em preto e branco o clássico de futebol no Pacaembu, via TV Record.
Diante de imensas telas planas e em cores dos restaurantes da Sabiá, ainda se vê alguns desses velhinhos a cochilar na hora do jogo. É impossível ficar desperto com lances sempre iguais. É insuportável o sono diante de narradores que apenas nos vazios entre uma jogada e outra entram no ar para anunciar solenemente o número de faltas de cada equipe, o número de cartões vermelhos, o número de impedimentos, os números da tabela, os números dos jogos dos últimos 10 anos, o número 0800 do patrocinador.
Quem conheceu os narradores poéticos do futebol, sempre acaba dormindo com os aritméticos.
Ah, mas não se incomode com essas mudanças.
O Sabiá é o de sempre, mesmo no crepúsculo da partida.
E deixou no canto do Sabiá um pouco da música dos deuses.
Em quintais singelos, consagrou essa união.
Sabiá Laranjeira.
Quem ouve seu canto em Moema é tocado pelo Deus Grego da Harmonia.
E se às vezes o canto dói ou incomoda é porque alguma coisa está fora do Tom Jobim.
Na harmonia do Tom Jobim, o Sol de Apolo é o mesmo que o Sabiá consagra com seu canto à beleza e à força de um amanhecer.
Ah, se as pessoas aprendessem a amanhecer. Mas, elas apenas entardecem.
O canto do Sabiá --- mesmo os que cantam fora de hora, iludidos pela claridade artificial de Moema --- é um elo para quem se perdeu dos deuses e dos heróis que ainda freqüentam o porão de nosso espírito, onde cortaram a luz.
Aquele que perguntar Quem Sou Eu no mesmo instante em que o Sabiá cantar, talvez não encontre a resposta, mas vai resvalar na parte obscura de nossa eternidade --- e vai se arrepiar.
É a mesma eternidade que pousa cambiante com o canto do Sabiá em tantas nuanças daquele jardim de rosas da casa 184 (meu Deus, tomara que ela ainda esteja lá).
Ouça o Sabiá e questione: Quem Sou Eu?
Questione em seguida que importância pode ter na eternidade a falta de tempo para uma depilação a laser.
E que importância tem quebrar uma taça de cristal comprada há pouco na loja de tantos brilhos efêmeros?
Não chore pelo vinho derramado.
Quando o Sabiá canta, acredite no milagre da multiplicação. O Sol de Apolo garante. Mesmo que haja sombras nos interiores de tantas igrejas e de tantas almas tão diferentes uma das outras e, no entanto, tão iguais. Mesmo que unhas de gato tornem intransponível o muro de um quarteirão inteiro e vozes adolescentes de colegiais tragam sonhos que tantos sonharam na hora do recreio.
Os ecos do canto do Sabiá preenchem o vazio das janelas de antigos sobrados que lembram laranja madura colhida no pé.E lembram pés de camomila e hortelã dos quintais, quando se fazia chá até para dor de cotovelo e nenhum dos vizinhos sabia explicar nem ouvia falar de tratamentos estranhos que vieram depois.
O que é shiatsu?
O que é catsu?
Os velhinhos da Sabiá só sabem a resposta da segunda pergunta. Justo eles que sabiam tantas coisas e nos sinais de fumaça do domingo passavam a mensagem de que depois do churrasco iriam todos assistir numa pequena tela em preto e branco o clássico de futebol no Pacaembu, via TV Record.
Diante de imensas telas planas e em cores dos restaurantes da Sabiá, ainda se vê alguns desses velhinhos a cochilar na hora do jogo. É impossível ficar desperto com lances sempre iguais. É insuportável o sono diante de narradores que apenas nos vazios entre uma jogada e outra entram no ar para anunciar solenemente o número de faltas de cada equipe, o número de cartões vermelhos, o número de impedimentos, os números da tabela, os números dos jogos dos últimos 10 anos, o número 0800 do patrocinador.
Quem conheceu os narradores poéticos do futebol, sempre acaba dormindo com os aritméticos.
Ah, mas não se incomode com essas mudanças.
O Sabiá é o de sempre, mesmo no crepúsculo da partida.
PRAÇA DO POMBO
À direita, imponente conjunto de edifícios empresariais, com vistoso e amplo jardim na frente.
À esquerda, a avenida Ibirapuera.
No alto,pombos, muitos pombos!
Abaixo, Ploft!
Os pombos, sempre os pombos.
Ploft!Ploft!Ploft!
À esquerda, a avenida Ibirapuera.
No alto,pombos, muitos pombos!
Abaixo, Ploft!
Os pombos, sempre os pombos.
Ploft!Ploft!Ploft!
RUA COTOVIA (miguel arcanjo terra)
A Cotovia é um pássaro assim de uns quinze centímetros de comprimento que tem uma das asas no Velho Mundo, outra no Novo e voa nos dois.
Seu canto vem desde Sherazade e já faz mais de mil e uma noites.
Lembra Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Marília e Dirceu.
Rua Cotovia: até suas figueiras majestosas revivem antigas sombras onde foram encontrados Rômulo e Remo e a Loba que os amamentava.
Também está lá na rua a mangueira que tem muito a ver com aquela outra que reverenciou com sombras e frutos a passagem de Buda.
Nesse grande círculo onde a vida gira, até o abacateiro da Rua Cotovia caberia, mas o abacate nunca teve lugar em nenhuma história, nem do Patinho Feio.
Agora, umas folhas de limão é bom pedir naquela casa cor de rosa, para amassá-las entre os dedos e pegar um pouco do aroma que rondava os frangos que as mães de domingo levavam à mesa depois da missa.
O famoso frango com polenta da Cotovia deve ter vindo de uma dessas mesas desarrumadas pelo vento.
E o vento passa, brincaria o locutor esportivo Fiori Gigliotti.
Hoje, o vento que passa carrega saquinhos plásticos de lixo, largados, vazios, a voarem em redemoinhos de empoeirada tristeza.
Os saquinhos voam múltiplos como os pombos em direção da Avenida Ibirapuera e deixam no ar esta questão: os homens um dia serão tantos como os pombos e saquinhos de lixo e morreremos todos espremidos à porta de um supermercado?
O gerente da loja de materiais para construção e embalagens acredita que não.
O dono da lavanderia só teme faltar sabão em pó.
O vendedor de chope em barril não vê nenhum perigo, porque os bêbados sempre sobrevivem e são os últimos a deixar o recinto.
Talvez o negócio perigue para a loja de inverno de Campos do Jordão. Vai ser um sufoco.
É bom lembrar que a Cotovia é uma rua gostosa para divagar, devagar.
As vitrines das butiques alimentam o sonho que todas as mulheres têm de serem mais bonitas do que a próxima mulher que encontrarem.
Do buffet para a academia de ginástica, da academia para o buffet --- é só atravessar a rua --- fica bem evidente que é muito pequena a distância entre o prazer e a dor. Uma atração mútua e eterna. Os portugueses, além do Brasil, também descobriram este grande negócio: perto de uma academia é o melhor lugar de uma padaria, porque o pão compensa a dor.
Parece divagação de japonês.
É. De um nissei.
Mas, ele já estava devagar, depois do quarto saquê no sushi-bar.
Seu canto vem desde Sherazade e já faz mais de mil e uma noites.
Lembra Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Marília e Dirceu.
Rua Cotovia: até suas figueiras majestosas revivem antigas sombras onde foram encontrados Rômulo e Remo e a Loba que os amamentava.
Também está lá na rua a mangueira que tem muito a ver com aquela outra que reverenciou com sombras e frutos a passagem de Buda.
Nesse grande círculo onde a vida gira, até o abacateiro da Rua Cotovia caberia, mas o abacate nunca teve lugar em nenhuma história, nem do Patinho Feio.
Agora, umas folhas de limão é bom pedir naquela casa cor de rosa, para amassá-las entre os dedos e pegar um pouco do aroma que rondava os frangos que as mães de domingo levavam à mesa depois da missa.
O famoso frango com polenta da Cotovia deve ter vindo de uma dessas mesas desarrumadas pelo vento.
E o vento passa, brincaria o locutor esportivo Fiori Gigliotti.
Hoje, o vento que passa carrega saquinhos plásticos de lixo, largados, vazios, a voarem em redemoinhos de empoeirada tristeza.
Os saquinhos voam múltiplos como os pombos em direção da Avenida Ibirapuera e deixam no ar esta questão: os homens um dia serão tantos como os pombos e saquinhos de lixo e morreremos todos espremidos à porta de um supermercado?
O gerente da loja de materiais para construção e embalagens acredita que não.
O dono da lavanderia só teme faltar sabão em pó.
O vendedor de chope em barril não vê nenhum perigo, porque os bêbados sempre sobrevivem e são os últimos a deixar o recinto.
Talvez o negócio perigue para a loja de inverno de Campos do Jordão. Vai ser um sufoco.
É bom lembrar que a Cotovia é uma rua gostosa para divagar, devagar.
As vitrines das butiques alimentam o sonho que todas as mulheres têm de serem mais bonitas do que a próxima mulher que encontrarem.
Do buffet para a academia de ginástica, da academia para o buffet --- é só atravessar a rua --- fica bem evidente que é muito pequena a distância entre o prazer e a dor. Uma atração mútua e eterna. Os portugueses, além do Brasil, também descobriram este grande negócio: perto de uma academia é o melhor lugar de uma padaria, porque o pão compensa a dor.
Parece divagação de japonês.
É. De um nissei.
Mas, ele já estava devagar, depois do quarto saquê no sushi-bar.
MOEMA DE TANTO ENCANTO (Miguel Arcanjo Terra)

--- Serenava o mar o seu olhar.
--- Olhar de quem?
--- De Moema.
--- Moema?
--- Moema, filha de Taparica, grande cacique Tupinambá.
--- Verdade ou é só história? Mas, conta, conta.
--- Em águas mansas, seu rosto pousava cor de bronze, reflexos de uma deusa.
--- Faz tempo que ninguém vê. Desliga a tevê. Conta.
--- Taparica era herói do seu povo.
--- Não fale de povo, que povo é frágil como casca de ovo.
--- Taparica era mais forte que Anhangá, o Rei dos Infernos. Foi ele quem abateu o terrível Jacaré que, a mando de Anhangá, devorava na tribo os meninos quase homens, quase guerreiros. Mas, toda essa rudeza do pai contrastava com a suavidade de Moema, serena, amena. Ah, essas flores que nascem nas pedras.
--- Por que esse suspiro se em tempo de Internet ninguém suspira mais?
--- Porque havia a irmã Paraguaçu. Ela era assim mais o jeito do pai, uma alma de mar tempestuoso. Ah, o colibri apenas toca a mesma flor em que pousa uma borboleta.
--- Eu não entendi.
--- Não? Eu quis dizer que a alma de Moema era de asas leves e ela voava e pousava de seus sonhos sem ferir a mais frágil flor.
--- E sua irmã Paraguaçu?
--- Ela não voava em sonho nenhum. Nem debruçava seu olhar ao longe, no mar. Moema, sim. E em suas visões estava o deus que lhe faltava, o maior de todos, o do amor.
--- Será que existe amor sem frescura?
--- Até que um dia ele chegou. Veio do lado de lá da linha do horizonte, onde ficam todas as quimeras.
--- Os pesadelos ficam do lado de cá?
--- Era um deus branco, nunca visto pelos Tupinambás e Moema amou o amor pela primeira vez.
--- Deus branco no meio de índio vira o diabo.
--- Na tribo, todos temeram que um demônio disfarçado chegava do reino de Anhangá. E Anhangá ensombrava o mundo.
--- Uh, sem frescura, me dá calafrios o Vale do Anhangabaú. É diabrura? Eu passo por cima, pelo Viaduto do Chá.
--- Taparica se adiantou com outros guerreiros. Abateria aquele demônio como já havia abatido o Jacaré. O deus do amor de Moema estava sob a mira da morte. Arcos e flechas, gritos de guerra. Moema fechou os olhos.
--- Ai, desculpe o suspiro.
--- Então, um estrondo sacode o mundo. A chispa de um raio. Uma ave cai do céu.
--- Parece magia negra.
--- Silêncio. Os índios recuam assustados.
--- De olhos agora abertos, Moema viu que Taparica, seu pai, e todos os guerreiros Tupinambás se prostravam diante do deus com quem ela sempre sonhou. Ele de pé. Soberbo. E ainda saía fumaça daquela estranha arma mais poderosa e certeira que as flechas de seu pai. Caramuru, gritavam. Homem Trovão. Caramuru.
--- Diogo Álvares Correia, o náufrago português?
--- Caramuru. O deus do amor de Moema.
--- Deus do amor. Esse é o mais misterioso dos deuses, cheio de caprichos.
--- Ele não escolheu Moema, mas quem nunca havia sonhado com ele: Paraguaçu.
--- Eu não disse que o deus do amor é fogo?
--- A irmã Paraguaçu tomou o mais lindo sonho de Moema.
--- Amor muito sonhado é amor perdido, desgarrado.
--- A dor dessa perda Moema escondeu num olhar triste, tão profundo que ás águas passavam sem refletir seu rosto. Caramuru e Paraguaçu viveram todo o tempo sem perceber a dor que fazia Moema ser uma sombra entre as sombras.
--- A história acaba num suspiro?
--- Moema saiu de si mesma e a história continua. Um dia Caramuru embarcou com Paraguaçu numa nau rumo à Europa.
--- Europa?
--- Paris. Lá Paraguaçu seria batizada com nome de rainha: Catherine du Brasil.
--- E Moema?
--- Quando a nau zarpou, Moema se atirou ao mar e a seguiu. Nadou, nadou, nadou. Já bem longe da praia perdeu-se da nau, de si mesma e do seu destino. E o mar envolveu seu corpo agonizante.
--- E aí os tubarões entram na história?
--- Os golfinhos. Eles trouxeram seu corpo morto até a praia. A lenda conta que ela continuava com a beleza viva de uma deusa. Dizem que até hoje Moema é linda.
--- Você, por acaso, sabe que dia é hoje?
--- Sexta-feira. E Moema aparece vestida de branco, entre rosas vermelhas, nos cultos onde evocam seu nome e onde Anhangá não aparece. E acabou a história.
--- História é sempre assim. Entra por uma porta, sai por outra, quem quiser que conte outra.
--- Olhar de quem?
--- De Moema.
--- Moema?
--- Moema, filha de Taparica, grande cacique Tupinambá.
--- Verdade ou é só história? Mas, conta, conta.
--- Em águas mansas, seu rosto pousava cor de bronze, reflexos de uma deusa.
--- Faz tempo que ninguém vê. Desliga a tevê. Conta.
--- Taparica era herói do seu povo.
--- Não fale de povo, que povo é frágil como casca de ovo.
--- Taparica era mais forte que Anhangá, o Rei dos Infernos. Foi ele quem abateu o terrível Jacaré que, a mando de Anhangá, devorava na tribo os meninos quase homens, quase guerreiros. Mas, toda essa rudeza do pai contrastava com a suavidade de Moema, serena, amena. Ah, essas flores que nascem nas pedras.
--- Por que esse suspiro se em tempo de Internet ninguém suspira mais?
--- Porque havia a irmã Paraguaçu. Ela era assim mais o jeito do pai, uma alma de mar tempestuoso. Ah, o colibri apenas toca a mesma flor em que pousa uma borboleta.
--- Eu não entendi.
--- Não? Eu quis dizer que a alma de Moema era de asas leves e ela voava e pousava de seus sonhos sem ferir a mais frágil flor.
--- E sua irmã Paraguaçu?
--- Ela não voava em sonho nenhum. Nem debruçava seu olhar ao longe, no mar. Moema, sim. E em suas visões estava o deus que lhe faltava, o maior de todos, o do amor.
--- Será que existe amor sem frescura?
--- Até que um dia ele chegou. Veio do lado de lá da linha do horizonte, onde ficam todas as quimeras.
--- Os pesadelos ficam do lado de cá?
--- Era um deus branco, nunca visto pelos Tupinambás e Moema amou o amor pela primeira vez.
--- Deus branco no meio de índio vira o diabo.
--- Na tribo, todos temeram que um demônio disfarçado chegava do reino de Anhangá. E Anhangá ensombrava o mundo.
--- Uh, sem frescura, me dá calafrios o Vale do Anhangabaú. É diabrura? Eu passo por cima, pelo Viaduto do Chá.
--- Taparica se adiantou com outros guerreiros. Abateria aquele demônio como já havia abatido o Jacaré. O deus do amor de Moema estava sob a mira da morte. Arcos e flechas, gritos de guerra. Moema fechou os olhos.
--- Ai, desculpe o suspiro.
--- Então, um estrondo sacode o mundo. A chispa de um raio. Uma ave cai do céu.
--- Parece magia negra.
--- Silêncio. Os índios recuam assustados.
--- De olhos agora abertos, Moema viu que Taparica, seu pai, e todos os guerreiros Tupinambás se prostravam diante do deus com quem ela sempre sonhou. Ele de pé. Soberbo. E ainda saía fumaça daquela estranha arma mais poderosa e certeira que as flechas de seu pai. Caramuru, gritavam. Homem Trovão. Caramuru.
--- Diogo Álvares Correia, o náufrago português?
--- Caramuru. O deus do amor de Moema.
--- Deus do amor. Esse é o mais misterioso dos deuses, cheio de caprichos.
--- Ele não escolheu Moema, mas quem nunca havia sonhado com ele: Paraguaçu.
--- Eu não disse que o deus do amor é fogo?
--- A irmã Paraguaçu tomou o mais lindo sonho de Moema.
--- Amor muito sonhado é amor perdido, desgarrado.
--- A dor dessa perda Moema escondeu num olhar triste, tão profundo que ás águas passavam sem refletir seu rosto. Caramuru e Paraguaçu viveram todo o tempo sem perceber a dor que fazia Moema ser uma sombra entre as sombras.
--- A história acaba num suspiro?
--- Moema saiu de si mesma e a história continua. Um dia Caramuru embarcou com Paraguaçu numa nau rumo à Europa.
--- Europa?
--- Paris. Lá Paraguaçu seria batizada com nome de rainha: Catherine du Brasil.
--- E Moema?
--- Quando a nau zarpou, Moema se atirou ao mar e a seguiu. Nadou, nadou, nadou. Já bem longe da praia perdeu-se da nau, de si mesma e do seu destino. E o mar envolveu seu corpo agonizante.
--- E aí os tubarões entram na história?
--- Os golfinhos. Eles trouxeram seu corpo morto até a praia. A lenda conta que ela continuava com a beleza viva de uma deusa. Dizem que até hoje Moema é linda.
--- Você, por acaso, sabe que dia é hoje?
--- Sexta-feira. E Moema aparece vestida de branco, entre rosas vermelhas, nos cultos onde evocam seu nome e onde Anhangá não aparece. E acabou a história.
--- História é sempre assim. Entra por uma porta, sai por outra, quem quiser que conte outra.
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