RUA BEM-TE-VI

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Cuidado que o Bem-Te-Vi te vê

segunda-feira, 19 de abril de 2010

AVENIDA ROUXINOL

Nenhum menino passarinho ouviu o Rouxinol em Moema.
E se por acaso ouviu, foi canto da saudade.
--- Lembrança canta dentro da gente igual Rouxinol, falou certa tarde, com arrastado sotaque e voz trêmula, o mais velho tintureiro de Moema. Ele veio do Japão.
O Rouxinol é passarinho de meninos da Ásia e da Europa. Eles chegaram há tempos por aqui. E se havia na viagem um passarinho na gaiola, fez um buraquinho e voou, voou, voou.
A cavalo no campo e, de repente, quieto, o Rouxinol. Visões de Matsuo Bashô, no seu diário de viagem, com os mais sutis versos do Haiku.
Nosso Rouxinol é o Corrupião e não tem placa de rua em Moema.
O Corrupião, alegre assobiador, é brasileiro nato, e canta o canto de qualquer outro passarinho. E é assim que qualquer brasileiro se vira quando lhe falta o dom. Ele pega um dom emprestado e entra no tom.E pode ser o tom de qualquer prosa, seja em cadeiras na calçada da padaria in ou nos balcões da padaria out, com cheiro de pão na chapa, à moda antiga.
Na Rouxinol, o tom muda de número em número.
Ora, empanadas argentinas.
Ora, uma casa de sopa, creme e geléia.
Ora, um café franqueado.
Atenção, cuidado, que vem no meio da rua um puxador de carroça na contramão, atrapalhando o tráfego.
Ah, essa porção de brasileiros que anda na contramão da Rouxinol, qual é o poder abaixo de Deus que pode mudar o seu destino?
Gente também é bicho, dá vontade de dizer para o jovem que defende o Mico Leão Dourado e busca a vida selvagem numa loja de roupas estilo jump. Ou para aquela mulher que sai com seu cachorro perfumado de um pet-shop.
Perfumes, cosméticos, moda, a vida é feminina.
E o puxador de carroça passa.
Lojas de pedras, estátuas e fontes artificiais para os jardins.
E o puxador de carroça passa.
Sobrados geminados que viraram lojas de decoração, clinicas veterinárias, clínicas dentárias, butiques, modos chiques.
E o puxador de carroça passa.
Um prédio de apartamentos imenso como o Edifício Copan, talvez sem tantas histórias nem poesia.
E o puxador de carroça passa.
A produtora de filmes e vídeos, o conjunto de escritórios que não reflete luz porque lhe falta brancura, a mercearia cheia de frescura.
E o puxador de carroça passa.
O açougue da esquina.
A carne é vermelha.
E o puxador de carroça pára.
A carne é fraca.
Fica com os olhos vidrados num belo pedaço. Ele não é de ferro nem de aço.
Escorre saliva dos cantos da boca.
A fome é molhada.
A sede é que é seca. Ele também é de uma secura que só Deus segura.
Então, vai embora, mas antes cospe a saliva na porta.
Ninguém se importa.
É bom lembrar que água na boca que vem com a fome, às vezes é o sinal de quem vai morder o mundo daqui a pouco como um cachorro louco.
(miguel arcanjo terra)

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