RUA BEM-TE-VI

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segunda-feira, 19 de abril de 2010

AVENIDA SABIÁ (miguel arcanjo terra)

Apolo deixou nas laranjeiras uma pequena porção das delícias do Olimpo.
E deixou no canto do Sabiá um pouco da música dos deuses.
Em quintais singelos, consagrou essa união.
Sabiá Laranjeira.
Quem ouve seu canto em Moema é tocado pelo Deus Grego da Harmonia.
E se às vezes o canto dói ou incomoda é porque alguma coisa está fora do Tom Jobim.
Na harmonia do Tom Jobim, o Sol de Apolo é o mesmo que o Sabiá consagra com seu canto à beleza e à força de um amanhecer.
Ah, se as pessoas aprendessem a amanhecer. Mas, elas apenas entardecem.
O canto do Sabiá --- mesmo os que cantam fora de hora, iludidos pela claridade artificial de Moema --- é um elo para quem se perdeu dos deuses e dos heróis que ainda freqüentam o porão de nosso espírito, onde cortaram a luz.
Aquele que perguntar Quem Sou Eu no mesmo instante em que o Sabiá cantar, talvez não encontre a resposta, mas vai resvalar na parte obscura de nossa eternidade --- e vai se arrepiar.
É a mesma eternidade que pousa cambiante com o canto do Sabiá em tantas nuanças daquele jardim de rosas da casa 184 (meu Deus, tomara que ela ainda esteja lá).
Ouça o Sabiá e questione: Quem Sou Eu?
Questione em seguida que importância pode ter na eternidade a falta de tempo para uma depilação a laser.
E que importância tem quebrar uma taça de cristal comprada há pouco na loja de tantos brilhos efêmeros?
Não chore pelo vinho derramado.
Quando o Sabiá canta, acredite no milagre da multiplicação. O Sol de Apolo garante. Mesmo que haja sombras nos interiores de tantas igrejas e de tantas almas tão diferentes uma das outras e, no entanto, tão iguais. Mesmo que unhas de gato tornem intransponível o muro de um quarteirão inteiro e vozes adolescentes de colegiais tragam sonhos que tantos sonharam na hora do recreio.
Os ecos do canto do Sabiá preenchem o vazio das janelas de antigos sobrados que lembram laranja madura colhida no pé.E lembram pés de camomila e hortelã dos quintais, quando se fazia chá até para dor de cotovelo e nenhum dos vizinhos sabia explicar nem ouvia falar de tratamentos estranhos que vieram depois.
O que é shiatsu?
O que é catsu?
Os velhinhos da Sabiá só sabem a resposta da segunda pergunta. Justo eles que sabiam tantas coisas e nos sinais de fumaça do domingo passavam a mensagem de que depois do churrasco iriam todos assistir numa pequena tela em preto e branco o clássico de futebol no Pacaembu, via TV Record.
Diante de imensas telas planas e em cores dos restaurantes da Sabiá, ainda se vê alguns desses velhinhos a cochilar na hora do jogo. É impossível ficar desperto com lances sempre iguais. É insuportável o sono diante de narradores que apenas nos vazios entre uma jogada e outra entram no ar para anunciar solenemente o número de faltas de cada equipe, o número de cartões vermelhos, o número de impedimentos, os números da tabela, os números dos jogos dos últimos 10 anos, o número 0800 do patrocinador.
Quem conheceu os narradores poéticos do futebol, sempre acaba dormindo com os aritméticos.
Ah, mas não se incomode com essas mudanças.
O Sabiá é o de sempre, mesmo no crepúsculo da partida.

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