RUA BEM-TE-VI

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Cuidado que o Bem-Te-Vi te vê

segunda-feira, 19 de abril de 2010

RUA LAVANDISCA

Essa rua virava lama nas chuvas de Verão.
Numa dessas tardes em que a soma de tudo dá como resultado um dia perdido, ele tirou as galochas, os sapatos, bateu barro no tanque e gritou em fúria:
--- Prefeito de merda!!!
Só mesmo fora de si falava uma coisa dessas. E fora de si invocou todos os espíritos com que lidava no seu fundo de quintal. Serviu uísque e bebeu com eles. Dançou na lama e bêbado foi dormir. Nem ocupou seu lugar na hora do jantar. Mas, lavou os pés.
Logo na manhã seguinte, centenas de passarinhos ocuparam a rua. Vieram pelo chamado daqueles espíritos do fundo de quintal.
Já chegaram batendo asas nas poças d’água. Batiam e espalhavam longe. Com seus pés e caudas, também amassavam a lama, espremiam, até que a terra finalmente secou.
O velhinho que contou a história disse que os passarinhos desapareceram de Moema faz muito tempo.
O velhinho está agora nos seus quatro anos de idade. Mas, aparenta muito mais.
Não dança mais nem chama seus espíritos de fundo de quintal, mas está morrendo de saudade. Coisas da idade.
O passarinho mede uns vinte centímetros de comprimento, falou.
Deve haver uns três centímetros de aumento. Mas, o velhinho não mente, o problema é da lente.
O passarinho tem cauda longa. A cabeça e a garganta são negras. A barriga e as faces brancas. Seu nome é Alvéloa, mas também atende pelo apelido de Lavandisca ou Lavandeira.
Se alguém encontrar, ligue para o velhinho.
Qual o telefone, qual o seu nome?
Esse é o problema: ele esqueceu todas as coisas que não sejam passarinho.
Velhinho que sobra é um sobrado.
E sobrado em Moema vira pó.
Na Lavandisca já caíram tantos.
E quando a casa cai, nem sempre há verba e frescura suficientes para cerveja importada ou uma feijoada light.
Aconselhável é comer Escondidinho na esquina. Mandioca e carne seca custam menos e rendem mais.
Desaconselhável é a auto-piedade pela falta de inteligência. Afinal, também falta inteligência no semáforo de pedestres da esquina com a Diogo Jácome.
A realidade do tempo virtual nem sempre combina com a do tempo real.
Tempo virtual é o que pode vir a ser. É o novo tempo de Moema.
As árvores continuam na real, mas elas são invisíveis num mundo virtual e o vir a ser passa por elas ligado num celular, indiferente.
Nas mesas dos bares, choperias e restaurantes da Lavandisca nem adianta beber para voltar ao tempo real. Conversas e olhares virtuais deixam patéticos os velhos garçons que ainda não são magnéticos.
Num mundo onde as pessoas vivem a sós com seus celulares de que servem cadeiras nas calçadas, se ninguém vai perceber a solidão menina de rua passar?
E as mãos negras e mendigas daquela mulher não encontram outras mãos, só as de si mesma, numa súplica. No tempo virtual são raros os momentos em que se pode juntar as mãos num Obrigado, meu Deus, ou num Deus lhe Pague.
A esperança na Lavandisca é ser Zen num restaurante japonês.
Jamais passe onde Deus não está. Mas, onde Ele está, passe depressa.
Ou questionar, só para chatear, não um Koan do Zen, mas o tamanho do colarinho do chope na mais antiga e correta casa de São Paulo. Espuma com menos de três centímetros, amarga o chope. E se for mais, amarga a conta.
Por falar em chope, na Lavandisca havia um pé de Dama da Noite.
Só os bêbados de passagem sentiram seu perfume em tempo real.
Desculpem os ais, mas hoje é enjoativo o cheiro das damas da noite virtuais.
Dá até medo de sonhar, porque vai tocar o celular.
Pobres valets que lidam com tickets e tiques nervosos. Eles são de outro mundo, o subsolo ou a parte do fundo, e formam com lavadores de pratos, faxineiros e entregadores de pizza o universo paralelo da Lavandisca, onde o tempo é real.
Em dois ou três botecos espremidos entre prédios e restaurantes de luxo, eles brindam depois do trabalho a volta à bucólica condição humana de procurar quebrar o gelo com um gole de cachaça. E dividir com dois ou três a conta da cerveja. Então, riem debochados dos homens tigres que passam.
Um tigre, dois tigres, três tigres.
--- Repita depressa, brincam entre eles.
--- Um tigre, dois tigres, três tigres.
Pobre, quando falta dinheiro, vira bicho.
Os bravos vão para a cadeia. Aqueles três tigres eram mansos e vinham de uma promoção de rua de uma academia de ginástica.
Mesmo sob peles encardidas de tigres de mentira, até os feios e pobres são bonitos em Moema. Dá para ver por fora.
Por dentro, sinceramente, quem é que ama o feio e bonito lhe parece?
E quem é que batalharia amorosamente para que em cada varanda dos prédios da Lavandisca plantassem uma rosa?
Qual o passante que perderia seu tempo a contar: Uma rosa é uma rosa, é uma rosa?
Existe muita pressa no tempo virtual para uma coisa dessas.
Essa pressa de andar e chegar, de ver e comprar. O tempo virtual que nos consome é o mesmo de nossa ânsia de consumo.
Mas, ainda existe um restinho de tempo real para se aproveitar na Lavandisca. Com ou sem colarinho.
Depois do sexto caneco, faça um favor a um velhinho: pergunte na mesa ao lado se alguém, por acaso, viu um passarinho de uns vinte centímetros de comprimento, que atende pelo apelido de Lavandisca ou Lavandeira.
Se fizerem gracinha, não leve a mal. Lembre-se de que você estará bêbado, também.
(miguel arcanjo terra)

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