RUA BEM-TE-VI

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Cuidado que o Bem-Te-Vi te vê

segunda-feira, 19 de abril de 2010

RUA GAIVOTA

Nas manhãs de sol bate uma brisa na Gaivota que não vem do mar, mas deixa a alma leve pra voar.
O mistério da felicidade rima com simplicidade e nessa rima à toa a gente voa, alma leve de Gaivota.
Vôo livre do olhar.
A gente até sonha que além dos prédios cercados por coqueiros e palmeiras fica o mar.
Mas, a algazarra dos bandos de periquitos põe o pensamento no lugar e a Gaivota passa a ser apenas o nome de uma rua singular.
O homem puxa a carroça, o cão segue atrás, os dois vira-latas.
Dói um pouco esse contraste.
Mas se o céu é azul na Gaivota e a brisa bate na rua, talvez Deus perdoe quem lava as mãos depois de pendurar em seu açougue uma tira de lingüiça que batizou de artesanal.
A vida é assim: não existe amor por inteiro, existe amor aos pedaços, mesmo que seja nome de confeitaria.
A Gaivota passa por cima dos desencontros e talvez o destino mude magicamente na loja de amuletos ou na loja de calçados. As cinderelas, às vezes, esquecem nas academias de ginástica o sapatinho de cristal. E os príncipes não sabem o que fazer na floricultura. Em mesas cobertas com toalhas azuis do restaurante da esquina eles esperam solitários o aviso do garçom de que é proibido fumar.
Ainda bem que existem manhãs de sol e é possível acreditar com a criança que atravessa a rua, de mãos dadas com a mãe, que a vida também é uma escola risonha e franca, sem azares de espelhos quebrados que enfeitavam as paredes de uma loja que fechou.
Em Moema, também se passa o ponto.
E se passa do ponto de exclamação para o ponto final assim sem muita reticência.
Nessa impermanência, o dono da loja de uniformes esquece toda a liberdade de ser diferente e torce para que continuem a uniformizar o mundo.
E torcem na loja de cães para que nenhum dono se perca no mundo e não caia o movimento de banho, tosa, hotel, veterinário.
Enfim, o azul do mar está pintado naquele edifício diferente de todos.
E dá vontade de ser zen na casa de sushi. É fácil. Basta resolver este koan: O que deixa a gente mais pobre? Um pé de limão rosa ou aquele carro importado na loja?
O pé de limão e o carro criam na Gaivota mais um contraste e o bucólico se destaca. É que o pé de limão secou e o portão de ferro da velha casa pegou ferrugem e se não fossem as flores do pé de pitanga o silêncio do quintal doeria muito mais.
Mas, existe um fim de rua de singelos portões e jardins e as casas não ameaçadas de extinção devolvem o brilho do olhar. E as mulheres buscam malhas que tenham um certo aperto e as crianças escolhem sapatos e tênis com alguma folga e as vovós vão ao mini-mercado preencher os vazios do dia e os jovens ou compram a camiseta em oferta na loja ou vão passear no boulevard.
No fim de tudo, sobra a serenidade de majestosa mangueira na esquina da Gaivota com a Cotovia. E ela deixa a mensagem de que suas sombras varrem a calçada, mas não levantam pó.

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