RUA BEM-TE-VI

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Cuidado que o Bem-Te-Vi te vê

segunda-feira, 19 de abril de 2010

RUA JURITI

Quando canta a Juriti dói bem aqui.
Nem é canto, é um arrulho.
Tristeza e ternura.
E bate uma saudade de chuva mansa, barulho no telhado, cantiga de mãe, vontade de ser criança e dormir.
Dor de chuva é dor enrustida que pega mais os que se perderam de seu destino. E se a alma é desgarrada, nem adianta tocar o sino.
A loja de óculos?
Pois, não, é logo ali.
Mas, pra que trocar os óculos se os olhos é que estão embaçados?
Quando a vida pega tanto no pé da gente, que culpa temos das mancadas?
Mas, é bom disfarçar na academia de musculação.
Em dia de chuva, dói mais aqui quando canta a Juriti.
Boa hora pra se lavar a alma.
Apanhe na papelaria umas folhas em branco. Escreva tudo o que lhe der na telha. Que apareçam todos os demônios e não importa que venham sem pé nem cabeça, com erros de concordância, grafia, pontuação. Escreva, escreva e faça bolinhas de papel com cada folha. Uma a uma, deixe-as na enxurrada, num descarrego para que se desfaçam os pesadelos.
Em dia de chuva tem outra opção: ficar no balcão da padaria com o queixo na mão.
Mas, tudo passa, tudo passará. A chuva, também.
E sob o Sol da Juriti as árvores passeiam com o vento, magníficas. Imponentes na frente de casas e prédios, elas adentram o Colégio NS Aparecida e deixam verde e criança o nosso olhar sem pecados concebido.
Sob o Sol da Juriti dá vontade de ser palhaço numa festa de aniversário no buffet infantil e, entre crianças, aliviar a alma, que às vezes fica pesada de dívidas e dúvidas com o próximo.
As dúvidas não incomodam tanto.
Mas, as dívidas, ah, as dívidas.
O carro importado, quem mais se importa com ele, além do banco?
O status passa, a merca fica.
O novo apartamento, sabe quem mora em cima? Sabe quem mora embaixo? Todo mundo sabe, já perdeu a graça e se paga tanto por tanta falta de graça.
A decoração assinada pelo mais colunável dos profissionais, olhe só o seu dinheiro no sorriso dele na foto, e não se percebe mais nada do que ele fez em sua casa, porque todos andam com os olhares caídos num vazio profundo.
Por isso é que dói bem aqui quando canta a Juriti.
E chove.
(miguel arcanjo terra)

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