RUA BEM-TE-VI

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Cuidado que o Bem-Te-Vi te vê

segunda-feira, 19 de abril de 2010

RUA TUIM

Tuim. Periquito cheio de amor pra voar. Manso e bonito.
Quando formam um par, ele e ela roçam suas penas, se afagam e cantam:
---Tuim, Tuim, Nunca Voe de Mim.
Se ninguém ouviu é porque anda distraído com o celular e canto de Tuim não entra em ouvido ocupado.
Amor de Tuim é desses raros amores que cantam na chuva.
Ele e ela, amor molhadinho, espargido um no outro.
E se fossem tangarás --- ele de Gene Kelly, ela de Cyd Charisse --- também dançariam na chuva, no meio da rua e alguma boa alma colocaria no ar, solta ao vento, a canção Singin’in the Rain.
A dança do amor do Tangará nenhuma criatura dança com tanta graça.
Diversos machos, às vezes até oito, diante de uma única fêmea, se soltam no ar com toda a paixão. Ela escolhe o mais encantador.
E o amor se cruza sob plumagens verdes e vermelhas, macio e delicado.
O Tuim também tem sua magia.
Mulher que achar e guardar seu ninho terá o homem que quiser.
Ele é o Periquito de Santo Antônio.
Sob as árvores da rua Tuim, uma velhinha parou saudosa. Olhar antigo.
---Na vida o amor é a coisa mais gostosa.
Falou bem assim.
O marido ela pegara no ninho.
Mas, o ninho do Tuim secou, voou, e o vento levou o marido pelo mesmo caminho.
Ela seguiu pela rua com seu andar capenga. Eram duas velhinhas cansadas: ela e a cachorra molenga.
Então, tocaram a campainha.
Ninguém.
Uma casa com alma de gato, coberta com unhas de gato nos muros e nas paredes. Mas cadê o gato, alguém, cadê?
Quem corta as unhas naquela casa? Ninguém?
O número da casa não importa e só o periquitinho verde sabe sua sorte. Não fica bem contar um conto e aumentar um ponto. E tomara que as unhas daquela casa tenham um bom corte.
Mas, na Tuim também existe uma casa amarela, singela, com barulho de panela.
O Sol sempre passa pela janela de quem bate panela numa casa amarela.
Almas da Tuim pintadas de aquarela.
Ninguém viu o Sebastião que varre o chão?
Folhas mortas, varridas da calçada, barulho do Sebastião, que abençoa o vento. Sem a vassoura, ele fica com o coração na mão.
Sebastião, na Tuim, tem mais de um. E nenhum quer mais nos seus sonhos nem jaca nem jerimum.
Agora, quem anda com o olhar no chão, que conte as folhas caídas.
Quem anda com o olhar no alto, que pegue uma flor de Ipê.
Brinque de ver na Tuim os pés não importa de quê.
Lá atrás daquele poste tem um pé de manacá. Você vai pra lá?
Num quintal sobrevivente, aparecem três velhos pés: Um é de Jabuticaba, outros dois de gente.
Um galho de Flamboyant, na altura do sexto andar, pede água à moça na janela. A moça não ouve, ocupada com o vidro, mãos de flanela.
Como um Flamboyant de Madagascar veio parar em Moema? E por que essa árvore fica tão seca no Inverno? Não pergunte à moça da janela. Ela também é seca e não espera flores como um pé de Ipê.
Agora, um conselho: Quando a alma doer um pouco, pegue uma tarde ou uma manhã da Tuim.
Existe muito amor a caminhar pelas calçadas. Mas, é bom lembrar: só pega o amor quem tem amor pra dar.
(miguel arcanjo terra)

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