Mesmo nestes tempos de tanta falta de coragem, ande uma noite dessas pela Ibijaú.
Pé ante pé.
Quieto.
Só você.
Uma sombra silenciosa vai passar sobre sua cabeça.
É a sombra da noite. O Ibijaú.
Esse pássaro, como tanta gente, tem hábitos noturnos, mas não é barulhento, como tanta gente.
O Ibijaú é um come-quieto da noite. Como pouca gente.
A rua Ibijaú, de dia, tem jeito do Ibijaú da noite. É uma sombra silenciosa de Moema. O desvio do desvario.
Mesmo com grandes hotéis, frente à frente, e prédios de escritórios, o silêncio da Ibijaú está nas sombras do grande pé de Pitanga ou na lenha empilhada em pequenos quintais abandonados.
Uma pilha de lenha na escuridão lembra a solidão primitiva dos homens, antes que Hera, esposa de Zeus, expulsasse do Olimpo o próprio filho Hefesto, só porque mancava de uma perna.
Hefesto, refugiado nos abismos da Terra, aprendeu lá o ofício de ferreiro. Com sua forja, fez fogo com os raios de Zeus, seu pai. E também fez Pandora, a primeira mulher mortal, com vida dada pelos deuses.
Tanta era a feiúra de seu filho, que Zeus, compadecido, lhe entregou Afrodite como esposa. E aí, sim, o fogo de Hefesto pegou de uma vez e chegou aos fornos das pizzarias.
Quem trabalha ou mora na Ibijaú, uma rua deliciosamente fora de um mundo cibernético e escalafobético, pode sentir a plena alegria de ser sem crachá.
Todos perdemos nossa essência com o contra-senso absurdo de um crachá, que nos dá uma identidade virtual e tira a real.
Não existe vida em Marte. E também não existe atrás de um crachá.
Do Largo da Matriz ao Largo da Matrix, o crachá veio aos poucos implantando a morte.
Penso, logo existo. É coisa morta.
Ser ou não ser, eis a questão. É coisa morta.
Amai ao próximo como a si mesmo. É coisa morta.
É preciso a coragem de desobedecer, de dizer não ao poder. É coisa morta.
É melhor ser muito do que ter muito. É coisa morta.
O homem não foi criado para ser coisa. É coisa morta.
A ternura é o mais belo sentimento humano. É coisa morta.
O homem reduzido a um cartão magnético deixa de ser original e criativo. É coisa morta.
A esperança é a última que morre. É coisa morta.
É impossível existir vida humana atrás de um crachá.
Mas, na Ibijaú, é possível dispensar crachás e cartões, todos esses cartões com que se chega à inadimplência, e buscar mansamente na vendinha uma lata de sardinha.
A grande arte de abrir uma lata de sardinha é a mais deliciosa provocação às futilidades de uma sociedade inconsistente.
É possível na Ibijaú, nas lingüiças penduradas do açougue, pendurar também o olhar, como um cão vadio e feliz. Basta um quilo de lingüiça para o homem se conhecer a si mesmo, dentro de si mesmo e com a plena consciência de si mesmo dentro do mundo. Contemplar um quilo de lingüiça resolve certas crises existenciais provocadas pela vaidade humana. Goethe concordaria, ele que deve ter sido um bom apreciador de lingüiça alemã.
E na locadora de livros alugar uns versos ou ter uma prosa de graça.
E nas locadoras de vídeo sentir que pelo menos num mundo de duas dimensões o controle é nosso.
Na Ibijaú, cortar o cabelo ou fazer ginástica é coisa sem frescura e se tem é só uma frescura de passagem, da sombra ou da aragem.
Naquela pracinha com bancos de tijolos aparentes tem mais sombra que gente.
E tem um recado no ar para construtores, incorporadores e outros mais ambiciosos:
Não pensem que o caminho para o céu é no sentido vertical. O caminho para o céu é no sentido horizontal. Ou como cantaria Cora Coralina:
Eu sou estas casas
Encostadas
Cochichando uma com as outras
Eu sou a ramada
Dessas árvores
Sem nome e sem valia
Sem flores e sem frutos
De que gostam a gente cansada e os pássaros vadios...
Eu sou aquele teu velho muro
Verde de avencas
Onde se debruça
Um antigo jasmineiro cheiroso
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Seguidores
Arquivo do blog
-
▼
2010
(20)
-
▼
abril
(20)
- MOEMA DE TANTO ENCANTO (Miguel Arcanjo Terra)
- RUA COTOVIA (miguel arcanjo terra)
- PRAÇA DO POMBO
- AVENIDA SABIÁ (miguel arcanjo terra)
- RUA GRAÚNA
- RUA PAVÃO
- RUA GAIVOTA
- RUA INHAMBU
- RUA CANÁRIO
- RUA JURITI
- AVENIDA ROUXINOL
- RUA IBIJAÚ (miguel arcanjo terra)
- AVENIDA JACUTINGA
- RUA PINTASSILGO
- AVENIDA MACUCO
- RUA LAVANDISCA
- RUA TUIM
- RUA TICO-TICO (miguel arcanjo terra)
- AS VIÚVAS DE MOEMA
- RUA BEM-TE-VI
-
▼
abril
(20)
Nenhum comentário:
Postar um comentário