A Cotovia é um pássaro assim de uns quinze centímetros de comprimento que tem uma das asas no Velho Mundo, outra no Novo e voa nos dois.
Seu canto vem desde Sherazade e já faz mais de mil e uma noites.
Lembra Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Marília e Dirceu.
Rua Cotovia: até suas figueiras majestosas revivem antigas sombras onde foram encontrados Rômulo e Remo e a Loba que os amamentava.
Também está lá na rua a mangueira que tem muito a ver com aquela outra que reverenciou com sombras e frutos a passagem de Buda.
Nesse grande círculo onde a vida gira, até o abacateiro da Rua Cotovia caberia, mas o abacate nunca teve lugar em nenhuma história, nem do Patinho Feio.
Agora, umas folhas de limão é bom pedir naquela casa cor de rosa, para amassá-las entre os dedos e pegar um pouco do aroma que rondava os frangos que as mães de domingo levavam à mesa depois da missa.
O famoso frango com polenta da Cotovia deve ter vindo de uma dessas mesas desarrumadas pelo vento.
E o vento passa, brincaria o locutor esportivo Fiori Gigliotti.
Hoje, o vento que passa carrega saquinhos plásticos de lixo, largados, vazios, a voarem em redemoinhos de empoeirada tristeza.
Os saquinhos voam múltiplos como os pombos em direção da Avenida Ibirapuera e deixam no ar esta questão: os homens um dia serão tantos como os pombos e saquinhos de lixo e morreremos todos espremidos à porta de um supermercado?
O gerente da loja de materiais para construção e embalagens acredita que não.
O dono da lavanderia só teme faltar sabão em pó.
O vendedor de chope em barril não vê nenhum perigo, porque os bêbados sempre sobrevivem e são os últimos a deixar o recinto.
Talvez o negócio perigue para a loja de inverno de Campos do Jordão. Vai ser um sufoco.
É bom lembrar que a Cotovia é uma rua gostosa para divagar, devagar.
As vitrines das butiques alimentam o sonho que todas as mulheres têm de serem mais bonitas do que a próxima mulher que encontrarem.
Do buffet para a academia de ginástica, da academia para o buffet --- é só atravessar a rua --- fica bem evidente que é muito pequena a distância entre o prazer e a dor. Uma atração mútua e eterna. Os portugueses, além do Brasil, também descobriram este grande negócio: perto de uma academia é o melhor lugar de uma padaria, porque o pão compensa a dor.
Parece divagação de japonês.
É. De um nissei.
Mas, ele já estava devagar, depois do quarto saquê no sushi-bar.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
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