RUA BEM-TE-VI

RUA BEM-TE-VI
Cuidado que o Bem-Te-Vi te vê

terça-feira, 27 de março de 2012

MISTÉRIO DO TROVÃO



E quando Deus se zanga com os homens seu coração bate mais forte e, então, se ouve o estrondo do trovão.


(De meu avô Joaquim Maestro, quando eu era um menino na janela)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

RUA BEM-TE-VI

Os tupis-guaranis chamavam o Bem-Te-Vi de Pitanga.
--- Raios! Como pode ser Pitanga se o próprio passarinho fica por aí a cantar que é Bem-Te-Vi?
Para os portugueses que descobriram o Brasil, chamar Bem-Te-Vi de Pitanga era mais uma esquisitice daquela gente de língua tão estranha, gente que nem sabia informar sobre o Caminho das Indias e se soubesse quem é que entenderia a explicação?
--- Ora, pois, se ele canta que é Bem-Te-Vi, Bem-Te-Vi é.
Nas madrugadas de Moema, é o Bem-Te-Vi que canta primeiro, dizem os portugueses que descobriram as padarias.
--- Bem-Te-Vi!
O passarinho mais conhecido do Brasil.
Passarinho que vê tudo.
Bem-Te-Vi!
1.
Ela escolhia um tênis de alta performance numa loja. Não era para o marido, mas para o seu personal training, que pelo tamanho dos pés deveria ser superdotado no resto e com umas pernas duas vezes mais roliças.
O marido, alto executivo, não percebia nada além de si mesmo. Mas o passarinho, ah, o passarinho:
--- Bem-Te-Vi!!!
E ela, assustada, deixou depressa a loja, sem comprar, sem agradecer, sem se despedir da vendedora, como só as mulheres de altos executivos costumam fazer.
Ele escolhia um sapato com estampas de oncinha em outra loja. Não era para a mulher, mas para a sua secretária, que tinha pezinhos de gueixa e pernas duas vezes mais novas.
A mulher, como toda mulher de alto executivo, não percebia nada além de si mesma. Mas, o passarinho, ah, o passarinho:
--- Bem-Te-Vi!!!
E ele saiu depressa da loja sem comprar, sem agradecer, sem se despedir da vendedora, como só os altos executivos costumam fazer.

2.
Dior, Armani, Moschino, Prada e Chanel.
Ela escolhia roupas de grifes internacionais, mas parecia apreensiva, nervosa, afinal estava numa ponta de estoque, numa ruazinha escondida, travessa da Bem-Te-Vi e não queria ser vista por nenhuma amiga. O que iria dizer e que vantagens poderia contar depois? E então:
--- Bem-Te-Vi!
Era o passarinho que vê tudo. E a amiga que passava de carro casualmente por ali também viu e acenou e o passarinho voou.
3.
Consultório de um analista, na Bem-Te-Vi:
--- Eu preciso de uma terapia, doutor.
--- Por que?
--- Minha vida sexual está um lixo.
--- Quantos anos você tem, meu caro?
--- Cinqüenta e três.
--- Casado?
--- Há vinte e sete anos.
--- E ela, quantos anos?
--- Quarenta e seis.
--- E qual o problema?
--- Eu só faço sexo de dia.
--- Meu caro, sexo não tem hora, portanto não vejo problema nenhum.
--- É que eu não consigo mais.
--- E à noite?
--- Doutor, eu troquei a noite pelo dia faz tempo.
--- Por favor, explique.
--- É que minha mulher estudou em colégio de freiras e o senhor sabe como é colégio de freiras.Ela nunca se deitou antes de rezar em voz alta, ajoelhada à beira da cama. E todas as vezes em que acontecia alguma coisa depois da reza, eu me sentia muito mal, até que não suportei mais a culpa de ser um demônio invadindo um convento. Troquei a noite pelo dia.
--- E qual o problema de dia?
--- Eu me sinto observado. Uma incômoda sensação de estar sendo observado. Confesso que estou à beira de um colapso nervoso.
--- É uma paranóia? Você está imaginando coisas?
--- Não estou imaginando nada, doutor. Acontece que toda vez que estou a fim, o passarinho canta.
--- Mas, isso é ótimo.
--- Estou falando do Bem-Te-Vi, doutor. Quando ele canta, eu me inibo, me encolho, me sinto vigiado como nos meus tempos de coroinha.
--- Coroinha? Você ajudava na Missa?
--- Sim. E tudo ia bem até que cheguei à adolescência. Ah, então todos os santos e anjos viraram bem-te-vis e me vigiavam onde quer que fosse. Quando eu caía em tentação, era mais de um bem-te-vi que cantava, eram todos os santos e anjos: Bem-Te-Vi! E agora, nos meus cinqüenta anos, os complexos de culpa me infernizam novamente e minha ereção despenca.
--- Vamos à realidade, meu caro. Lembre-se que é só um passarinho cantando. Lembre-se disso e tudo volta ao normal.
--- Não volta, não, doutor. A minha mulher deve ter desconfiado do meu problema e vive a repetir que a coisa que ela mais gosta de ouvir é o canto do Bem-Te-Vi.
Bem-Te-Vi.
Passarinho que vê tudo.
4.
Ele sempre passou muito bem acompanhado pelos bares e cafés de Moema. E sempre foi embora sem pagar a conta.Agora, estava numa mesinha na calçada da Bem-Te-Vi, à sombra das árvores, soberano em sua impunidade, carinhoso com a mulher a seu lado. Não era conhecido ali. Pediu café expresso para dois, caprichado. Café nada tem a ver com pastel assado de espinafre, mas ele também pediu, para dois, caprichado. E ficaram a contemplar as vitrines em frente, sem pressa de ir embora. Então, ele foi até o balcão, sorriu para a moça que estava no caixa, simulou pagar a conta, deu um tempo, voltou para a mesa e estendeu as mãos carinhosamente. A mulher se ergueu e de mãos dadas saíram, tranqüila e amorosamente. Então, o passarinho cantou:
--- Bem-Te-Vi!
Ele parou assustado. O segurança, que há pouco o recebera com um sorriso duas vezes maior que o dele, agora o abordava, com uma cara duas vezes mais fechada:
--- O senhor não pagou a conta.
Adivinhe quem pagou?
Bem-Te-Vi!
5.
Ela jamais havia mexido na carteira do marido em quarenta anos de casamento.
Mas, a tentação daquela malha de Campos de Jordão em oferta numa loja da Bem-Te-Vi, ah, que tentação.
O marido, como sempre, saíra devagarzinho em direção do Parque Ibirapuera. Ia e vinha, todas as manhãs.
A carteira estava ali à beira da cama. Estufada.
Suas mãos tremiam, nervosas, quando a apanhou.
Havia dinheiro para comprar quantas malhas quisesse.
Mas, bastava uma malha só. Ela se benzeu, pediu perdão à Nossa Senhora Aparecida, pediu mais de uma vez, muitas vezes, e começou a puxar lentamente o dinheiro da carteira.
E então:
--- Bem-Te-Vi! Bem-Te-Vi!
Ela caiu sentada na cama. Pálida.
O marido desistira de ir ao Ibirapuera e imitava o canto do Bem-Te-Vi, a seu lado.
--- Bem-Te-Vi!
Imitava e ria, achara engraçada e inocente a reação de sua mulher ao ser surpreendida.
Ela começou a rir junto com ele e os dois se abraçaram amorosamente.
À tarde, foram comprar a malha.
Bem-Te-Vi.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

AS VIÚVAS DE MOEMA

De Miguel Arcanjo Terra

Personagens:
Glorinha
O Marido de Glorinha
Oito viúvas

Primeiro Ato
(Cenário 1: O marido de Glorinha fala com um amigo ao celular. Nervoso, com gestos exagerados, ele vai e vem de um canto a outro da sala, sem parar de falar.)

--- Meu velho, não sei o que fazer!!!!!!!!
Desculpe as exclamações.
São exatamente oito exclamações diante de oito viúvas alegres, alegríssimas.
Hen? Como? Você me pergunta qual é o problema?
O problema, meu velho, é que essas más influências estão pervertendo minha mulher. Que mulher? A Glorinha, quem poderia ser!
(pausa)
--- Claro que a Glorinha não é viuva! Você sabe muito bem que ela só se casou uma vez e foi comigo. E se estou falando com você é porque ainda estou vivo. Mas, todas querem que eu morra e que minha mulher se junte a elas como a mais nova viúva da turma.
(pausa)
--- Não ria, não ria. Hen? O que foi que você disse? A Glorinha, na cotação do mercado, seria uma viúva semi-nova???. Ah, não, sem gozação, meu velho. A verdade é que estou apavorado. Sinto no ar uma conspiração contra mim. Querem me ver num caixão de defunto. Mortinho!

(Cenário 2: Nove mulheres à mesa jogam cartas. Uma delas é a Glorinha. O incenso fumega num canto da sala. Elas falam de maneira incompreensível. A ordem das palavras e das sílabas em cada frase vêm do fim para o começo, ao contrário. São bruxas a confabular, na imaginação do marido de Glorinha, que espia atrás da cortina. Fala uma das mulheres)
--- Avvi rehlum da dedacilife a é otrom odiram.
(Todas riem.)

(Marido de Glorinha, ao telefone, ainda atrás das cortinas)
--- Você ouviu, você ouviu? Ela acabou de dizer que marido morto é a felicidade de mulher viúva.
(As mulheres continuam a falar de modo estranho e a jogar)
--- Laveno da metno de lotupica o viu cevo?
--- emfo moc uotse!
--- mebmat ue!
--- azzip amu ridep lat ueq!!!
Todas comemoram
--- Abo! Abo!!!

(Cenário 1: Marido de Glorinha continua ao telefone)

--- Ai, meu Deus, a morte é rija. Eu nunca vi nem soube de defunto mole! O que? O biláu??? Pelo amor de Deus... Que catso de amigo é você? Estou aqui na maior angústia e você fica fazendo gracinha??? Estou assustado, meu velho. E flores murchas me enjoam.
Maldito seja quem criou coroas de flores para defunto.
Maldito seja esse imbecil já devidamente falecido.
Não, não!
Não se trata de paranóia. Pare com isso! Estou na real, meu velho! Acabei de ouvir agorinha mesmo! Elas querem acabar comigo!
Sabe por que?
Eu sou o único, só eu, o único e último marido vivo. E isso atrapalha os planos em que incluem minha mulher. Para elas, marido morto é melhor. Devem ser planos rebolantes, mirabolantes, uma armação perfeita para grandes sacanagens, não importa se em Paris ou num Hotel Fazenda de Lindóia ou Piracicaba.
Não, não! Não pirei, não senhor! Estou perfeitamente lúcido e precavido como um marido ainda vivo.
Ai, meu Deus, não sei se ainda confio na Glorinha.
Eu sempre confiei mais na Glorinha quando confiava mais em mim.
Mas, comecei a me sentir inseguro quando inventaram essa faixa dos que só transam em terceira e se passarem para a quarta morrem.
Estou falando de terceira idade, meu velho!
(pausa)
Malditas ONGS, malditos políticos demagogos, malditos publicitários e jornalistas! Todos transformaram maridos vivos como eu numa coisa de terceira. E eu já fui de primeira, meu velho, você sabe muito bem que eu fui de primeira. Fui, não! Ainda sou! Mas quem é que acredita? Os de primeira como eu estão quase todos mortos por essa propaganda nojenta da Terceira Idade. E os que parecem vivos já morreram faz tempo nas filas dos supermercados. Viraram fantasmas do dia à caça das ofertas do dia.
O que? Imagina! Nunca! Não estou nessa, não estou nessa, não entro em fila preferencial. Mas, as malditas viúvas estão fazendo a cabeça de minha mulher de que sou tão descartável como um saquinho de supermercado. Mas, meu saco ainda é roxo e ecologiamente correto.
Sem os maridos, essas malditas viúvas descobriram que se a vida de casada era boa, a vida de viúva é melhor. Ah, claro! Descobriram tudo isso com a pensão ou herança que deixaram os falecidos. Agora, elas querem que eu morra! Já percebo em minha mulher um olhar assim de missa de sétimo dia.

(Volta Cenário 2: As nove mulheres conitinuam a jogar cartas e falar ao contrário, muito alegres)


Segundo Ato
(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone, agitadíssimo)

--- Minha idade? Claro que você sabe minha idade! Ou você está com o mal de Alzeimer, meu velho?
(pausa)
--- Estou na faixa de idade do Gil, Caetano, Chico Buarque, Pelé, Zé Celso Martinez, Paulinho da Viola, Dominguinhos, Erasmo, Roberto Carlos, Djavan, Milton Nascimento, Mick Jagger, Rod Stewart, David Bowie, Ney Matogrosso...Hen, hen??? Quem foi que morreu???
(pausa)
--- Puta que pariu!
(pausa)
--- Minha mulher? Ela é uma Betânia... Não, não... Betânia, não... Ela é uma Gal. Gal de rosto, com fachada de Fafá de Belém.
Mas, as mulheres de nossa geração não entram na faixa dos descartáveis. Os homens, sim. Como um objeto. Homem-Objeto de Terceira... Terceira Idade, é isso mesmo!
Malditos publicitários que nos enfaixaram assim. Eu sou um enfaixado pela minha faixa etária. Você também.
Detesto jogo de palavras, você sabe disso, principalmente dos publicitários. Eles ficam brincando e enfaixando a gente pela idade: Prosperidade, Melhoridade, Fraternidade. Tudo tem idade, tudo imbecilidade, barbaridade que me faz sentir muitas vezes fora do meu destino de ser simplesmente gente, não uma espécie em extinção e protegida como um Mico-Leão Dourado, que é outro bom passatempo de publicitários desocupados.
(O marido de Glorinha grita exasperado)
--- Eu não sou um Mico-Leão Dourado!!! Eu não vou pagar o Mico!!!
(pausa)
--- Ah, então você acha que em Moema não existe mais ninguém assim como a gente??? Só altos executivos bem sucedidos? Mas, nós também não fomos altos executivos bem sucedidos? Claro que fomos. E são muitos no bairro assim como nós. Pode conferir: atrás de um cachorro sempre vem um ex-alto executivo bem sucedido. Mas, se atrás do cachorro vier uma mulher, sozinha, ah, pode ter certeza: é mais uma viúva alegre de um ex-alto executivo bem sucedido.

(Cenário 2: As nove mulheres continuam a falar palavras e frases ao contrário. As oito viúvas agora estão em volta de Glorinha, afagam seus cabelos, procuram animá-la e ela, sorrindo timidamente, balança a cabeça, fazendo que não. Fecha)

(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)

--- Não é loucura minha, não. As viúvas de Moema estão soltas por aí. Onde? Meu Deus, você continua o alienadão de sempre, distraído das coisas e do mundo. Passe à tarde nos cafés de Moema, passe! Elas estarão à mesa em grupinhos de quatro ou cinco.
Como saber se elas são viúvas?
Pelo Botox.
Botox de viúva é diferente. Os olhos ficam mais arregalados e a boca deixa a impressão de que a mulher está assobiando baixinho.
Quer outra dica?
Algumas gostam de andar em Moema com dois cachorros: o dela e o do marido morto. É fácil descobrir qual é o do marido morto: é o cachorro mais triste.
Graças a Deus que eu não tenho cachorro, esse gostinho não vou dar à minha mulher quando ela ficar viúva.
Na verdade, essa conspiração das viúvas contra maridos vivos me assusta muito. As mulheres são mais solidárias que os homens e se duas ficam viúvas, a terceira começa a pensar e agir como se não existisse mais marido na sua vida e ele é simplesmente desprogramado no dia a dia e também nos sábados, domingos e feriados.
Meu velho, marido é uma das coisas mais obsoletas destes tempos. Principalmente marido de terceira... Terceira idade, meu velho! É do que estou falando. Não, não... Não me venha dizer que você é diferente só porque casou duas vezes. É muito pior o seu caso. Eu diria que é de alto risco.
Quantos anos tem sua mulher? Olha só! A metade de sua idade. Isso é risco em dobro, ai que medo. É viúva que nem precisa gastar sua pensão em botox e afins para se exibir à tarde nos cafés e no shopping, onde garanhões desocupados sempre circulam a exibir bíceps e bundas arredondadas por anabolizantes.
(pausa)
Não sei por que as mulheres admiram bundas de homem. Você sabe dizer por que? Fico perplexo e até complexado, porque na parte dos fundos eu sou um imenso vazio. Hen? Na parte da frente? Bem, aí eu diria que sou mais ou menos, mais pra menos do que pra mais. Quero dizer que não estou com essa bola toda.
Terceiro Ato
(Cenário 2: As nove mulheres --- as oito viúvas e Glorinha --- agora cantam em uníssono Explode Coração, uma composição de Gonzaguinha, mas com palavras e frases ao contrário, como a música de trás para a frente. Marido de Glória as espia atrás da cortina).

Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar e eu não quero mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar

Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar
E se perder e se achar e tudo aquilo que é viver
Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim
Como se fosse o sol desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor desta manhã

Nascendo, rompendo, tomando, rasgando meu corpo e então eu
Chorando, gostando, sofrendo, adorando, gritando
Feito louca, alucinada e criança
Eu quero o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar explode coração.

Fecha.}

(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)

--- Você não sabe da maior, meu velho. Uma dia destes dei uma de Sherlock Holmes. Segui minha mulher e a vi entrando numa bela casa na avenida Eucaliptos. Ela e as viúvas. Eureca!!! Bingo!!! Passei a tarde de campana, até que ela e as viúvas deixaram a casa e cada uma seguiu seu rumo. O caseiro, um velhinho de jeito muito bom, ficou no portão até que todas se fossem. É com ele que eu vou saber das coisas, pensei comigo. Cheguei antes que ele fechasse o portão. Boa tarde, boa tarde, fui falando e chegando. Minha irmã já foi? Menti: minha irmã é a dona Glorinha. Ela ficou viúva. Pobres viúvas.
Mas, a dona Glorinha não é viúva, ele respondeu.
Mas está querendo ficar, retruquei. O senhor, não ouviu por acaso a conversa dela com as amigas?
Aqui, eu só ouço a reza delas, ele respondeu. Todas vêm rezar pelos falecidos. Só na hora do chá é que falam outras coisas. Mas eu não sou de ficar ouvindo, que não é coisa de bem para um homem da minha idade. O que eu posso dizer é que na hora da reza, desce o espírito de um marido falecido, sempre desce, e vem bravo. Então, as donas acalmam o coitado e dizem que está tudo bem e que o mundo está mudando muito, por isso que é preciso se enfeitar, mudar a cara também, porque mulher que passa dos sessenta, passa e não volta e não adianta passar mais nada. E o mundo não aceita mulher mal passada. Aí todas pedem luz para o falecido, rezam e então o espírito descansa em paz. É assim.

(Cenário 2: As nove mulheres --- as oito viúvas e Glorinha --- continuam a cantar em uníssono Explode Coração.
...Nascendo, rompendo, tomando, rasgando meu corpo e então eu
Chorando, gostando, sofrendo, adorando, gritando
Feito louca, alucinada e criança
Eu quero o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar explode coração.)


(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)

--- Você quer saber seu conheço bem as viúvas amigas de minha mulher?
Não muito.
Algumas eu vi pela primeira vez nos tempos de moça.
Agora nenhuma delas confere mais com o original.
As bundas e os seios ou murcharam ou ficaram moles ou se enrijeceram com silicone.
Hen? Eu estou sendo cruel? Você quer saber da alma e não do corpo?
Mas, qual é o homem que conhece a alma de uma mulher?
Mulher a gente define pelo corpo, meu velho.
No homem, é a alma que faz o corpo. Na mulher, é o corpo que faz a alma. Exatamente por isso, mulher quando ainda é bonita procura homem e nem liga pra Deus. Mas, quando fica velha e feia, ahhh... Por que as igrejas ficam cheias de velhinhas? Por que? Diga! Com a feiúra do corpo a alma entra no lugar querendo ser a mais bonita diante de Deus.
Ai, que não vejo a hora de minha mulher ficar bem velhinha, muito mais alma que corpo, e eu, velhinho também, caminhar a seu lado, bem devagarzinho, para o mundo não acabar depressa. Mas, ela e suas amigas estão naquela idade em que a saudade é sempre de alguma coisa que ainda se pode pegar. E esse é o ponto crítico da vida, porque é uma linha muito tênue que nos separa do absurdo e do ridículo.

(Cenário 2: As nove mulheres --- as oito viúvas e Glorinha --- mexem coisas num grande caldeirão, como se fosse um ritual de bruxas, enquanto continuam a cantar Explode Coração.)

(Cenário 1: O marido de Glorinha continua ao telefone.)

--- Você não sabe o que aconteceu meu velho amigo. Anteontem à noite, minha mulher me surpreendeu com um convite.
Querido, você gosta de paella? Ela sabe que eu adoro paella.
Minhas amigas --- ela continuou ---estão preparando uma paella para um jantar muito especial e você é o único homem convidado.
Como eu poderia ficar feliz com o convite?
É minha morte. Não é paranóia, não.
Basta jogar uma porção de arsênico e pronto.
Quem é que vai descobrir arsênico no meio daquelas coisas da paella? Arroz, açafrão, pimentão, carne, camarão, polvo, lula, mexilhão. Causa mortis: intoxicação alimentar. Você sabe que o arsênico mata como se fosse uma doença e é difícil diagnosticar envenenamento. O cara fica cansado, letárgico, deprimido. Vem diarréia, enjôo, perda de peso, de cabelos, tudo para o medico diagnosticar tudo, menos envenenamento. Então, chega a morte. Assim de mansinho.
Estou tão chateado com tudo isso que acho que vou aceitar o convite para morrer.
Tratamento, eu? Um psiquiatra? Você precisa muito mais, meu velho. Quem é que fica sublimando tudo? O pior cego é aquele que não quer ver. Eu estou na real, você não, ainda parece aquele mesmo adolescente que escrevia versinhos para as mulheres do La Licorne, elas que gostavam mais de ler notas de dólar.
Quer saber? Vou ao jantar. E que seja o belo jantar da minha morte.
Haverá velas brancas e amarelas acesas em castiçais próximos da mesa. Nada a ver com paella. Muito a ver com minha morte.
As velas vão me piscar do além e me lamber de longe e eu não vou me importar. Morrerei depois da paella com toda a minha dignidade e plena certeza de que tudo valeu a pena mesmo com minha alma pequena. Ai, que frase horrivel!
Nos brindes antes do jantar, taças com Abadal Cabernet serão erguidas e a dona da casa pedirá a palavra.
Respirarei fundo para não extravasar minha raiva diante daquele sorriso que será um traço sutil de descaramento e cinismo. Sorrirei, também. Mas, na verdade eu já estarei meio morto de ódio. Malditaaassss!!!

(Cenário 3: Mesa de jantar magnificamente arrumada para o jantar. Ele, sentado à cabeceira da mesa, como convidado especial, olha desconfiado e um pouco assustado para a mulher e as amigas, todas com roupas elegantes. A anfitriã se ergue e inicia um discurso.)
Anfitriã
: A razão deste jantar é que estamos preocupadas com você, muito preocupadas mesmo. Você sabe muito bem que o cigarro mata!
Marido: Arsênico, também.
Anfitriã: Como???
Marido: Esquece...
Anfitriã: Queremos que você deixe o cigarro e viva mais. Cinco de nós perderam o marido para o cigarro. Cinco. Só uma acha que não foi o cigarro.
Uma das víuvas interfere: Conta pra ele, conta...
Anfitriã: Bem... A secretária levou a culpa... Mas, aquele cigarro depois é que provocou o enfarte. Tinha até buraco no colchão. Meu falecido marido viu as fotos da Polícia, as fotos estavam junto com a calcinha que a secretária esqueceu na fuga desesperada do motel.
Marido: (ri nervosamente, um riso sem nexo).
Anfitriã: Peço licença à minha grande amiga Glorinha para dizer que você é neste momento o único homem de nossas vidas.
Glorinha (emocionada): O único homem...
Anfitriã: Por favor, pare de fumar.
Todas as mulheres em coro: Páre, Páre, Páre!!!
(As mulheres erguem-se ao mesmo e correm até ele para um grande abraço.
Fecham-se as cortinas. Logo depois, ele sai detrás das cortinas, num canto do palco, falando ao celular)
--- A maior paella, meu amigo... O vinho? Nem te conto... Eu sou o único homem num jantar de mulheres, perdido entre beijos e abraços. Estou me sentindo um sultão de Bagdá e se a Glorinha bobear vou ficar com todas ... Falta de ar? Que falta de ar, velho? Estou com o fôlego todo...Enfim, meu amigo, se nos próximos dias você por acaso reparar numa mesa de café com um homem cercado de mulheres por todos os lados, e se a soma das idades dessas mulheres der um total aproximado de uns seiscentos anos, pode ter certeza: o homem sou eu. Claro que não vou estar fumando. Desculpe, desculpe, mas eu tenho que voltar à mesa... Tcháuuu!!!! (despede-se também da platéia e volta para trás das cortinas)
FIM

RUA TICO-TICO (miguel arcanjo terra)

Havia uma rua em Moema com nome de Tico-Tico.
--- O Tico-Tico ta?
---Tá!
--- Tá outra vez aqui?
--- Ta!
--- O Tico-Tico ta comendo meu fubá.
Um Baba-Ovo qualquer implica-se com o Tico-Tico:
--- O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer umas minhocas no pomar
Mas por favor, tire esse bicho do seleiro
Porque ele acaba comendo o fubá inteiro
E nesse tico de cá, em cima do meu fubá
Tem tanta coisa que ele pode pinicar
Eu ja fiz tudo para ver se conseguia
Botei alpiste para ver se ele comia
Botei um galo, um espantalho e alçapão
Mas ele acha que fubá é que é boa alimentação

Com uma velha vocação bajuladora, e com medo de perder o seu fubá, o Baba-Ovo ergue-se diante de seus pares na Câmara Municipal, espanta o Tico-Tico do muro e reserva o lugar para um Ministro.
Ele, o Ministro, ainda está lá pendurado numa placa.
Basta consultar o Guia de São Paulo para confirmar.
O Tico-Tico nunca mais se viu nem se falou.
Talvez alguém questione qual a importância de um Tico-Tico diante de um Ministro.
Afinal, o que é um Tico-Tico na história de um país que, igual a todos os países do Terceiro Mundo,reverencia a Águia Americana?
Cabe aqui uma analogia para se medir a importância das coisas, com a devida licença de Platão, mestre no assunto.
Cena 1: Carmem Miranda canta Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu:
--- O Tico-Tico ta, ta outra vez aqui, o Tico-Tico ta comendo o meu fubá...
O povo na rua se envolve alegremente. Dança com o Tico-Tico. Ri. Brinca. É a divina transformação do adulto numa criança feliz.
Cena 2: Um Baba-Ovo bate palmas, mas não é aplauso, é uma ordem. Que parem a dança e parem a música e se alinhem e se endireitem em posição de sentido e que em lugar do chorinho cantem o Hino Nacional. A rua agora é do Ministro.
Num país, num estado, numa cidade, numa rua, nada é mais triste do que espantar um Tico-Tico para homenagear um Ministro.
O mal deste país sempre foi confundir pardal com Tico-Tico.
O Tico-Tico traz um topete na testa. Mas, não é topetudo, no sentido arrogante da palavra. Em sua humildade, ele choca os ovos do chupim e ainda alimenta os filhotes. O chupim, esperto, joga fora os ovos que estavam no ninho do Tico-Tico e põe os seus no lugar. Assim nasce uma ninhada inteira de chupins, essa espécie que saiu dos campos para diversas instituições públicas.
O Tico-Tico também não voa em grandes bandos. Não é um passarinho político. E nunca armou conchavos para ser um símbolo e um dos mais populares representantes de nossa fauna.
Assim como o chorinho de Zequinha de Abreu, o Tico-Tico é o Brasil brasileirinho, o Brasil Tico-Tico no Fubá, quando as crianças à tarde brincavam livremente numa rua que ainda não era do Ministro e o Tico-Tico ciscava o chão e os jardins.
Há quase 50 anos, foi plantada uma muda de Sibipiruna na Tico-Tico, em frente de uma das casas mais felizes da rua.
A árvore continua lá. A casa virou um grande prédio de apartamentos.
E numa dessas manhãs em que a gente sai em fuga dos fantasmas que rondam nossas almas, lá estava um Tico-Tico num galho da Sibipiruna. Havia uma flor amarela ao seu lado. O Tico-Tico e uma flor amarela.
Deu vontade de chorar.
Mas, a placa da rua com nome de Ministro estava bem à vista e a vontade passou.
Naquela casa foi ensinado, num lindo domingo de Primavera, que um homem pode chorar diante de um poeta.
Mas, jamais diante de um Ministro.

RUA TUIM

Tuim. Periquito cheio de amor pra voar. Manso e bonito.
Quando formam um par, ele e ela roçam suas penas, se afagam e cantam:
---Tuim, Tuim, Nunca Voe de Mim.
Se ninguém ouviu é porque anda distraído com o celular e canto de Tuim não entra em ouvido ocupado.
Amor de Tuim é desses raros amores que cantam na chuva.
Ele e ela, amor molhadinho, espargido um no outro.
E se fossem tangarás --- ele de Gene Kelly, ela de Cyd Charisse --- também dançariam na chuva, no meio da rua e alguma boa alma colocaria no ar, solta ao vento, a canção Singin’in the Rain.
A dança do amor do Tangará nenhuma criatura dança com tanta graça.
Diversos machos, às vezes até oito, diante de uma única fêmea, se soltam no ar com toda a paixão. Ela escolhe o mais encantador.
E o amor se cruza sob plumagens verdes e vermelhas, macio e delicado.
O Tuim também tem sua magia.
Mulher que achar e guardar seu ninho terá o homem que quiser.
Ele é o Periquito de Santo Antônio.
Sob as árvores da rua Tuim, uma velhinha parou saudosa. Olhar antigo.
---Na vida o amor é a coisa mais gostosa.
Falou bem assim.
O marido ela pegara no ninho.
Mas, o ninho do Tuim secou, voou, e o vento levou o marido pelo mesmo caminho.
Ela seguiu pela rua com seu andar capenga. Eram duas velhinhas cansadas: ela e a cachorra molenga.
Então, tocaram a campainha.
Ninguém.
Uma casa com alma de gato, coberta com unhas de gato nos muros e nas paredes. Mas cadê o gato, alguém, cadê?
Quem corta as unhas naquela casa? Ninguém?
O número da casa não importa e só o periquitinho verde sabe sua sorte. Não fica bem contar um conto e aumentar um ponto. E tomara que as unhas daquela casa tenham um bom corte.
Mas, na Tuim também existe uma casa amarela, singela, com barulho de panela.
O Sol sempre passa pela janela de quem bate panela numa casa amarela.
Almas da Tuim pintadas de aquarela.
Ninguém viu o Sebastião que varre o chão?
Folhas mortas, varridas da calçada, barulho do Sebastião, que abençoa o vento. Sem a vassoura, ele fica com o coração na mão.
Sebastião, na Tuim, tem mais de um. E nenhum quer mais nos seus sonhos nem jaca nem jerimum.
Agora, quem anda com o olhar no chão, que conte as folhas caídas.
Quem anda com o olhar no alto, que pegue uma flor de Ipê.
Brinque de ver na Tuim os pés não importa de quê.
Lá atrás daquele poste tem um pé de manacá. Você vai pra lá?
Num quintal sobrevivente, aparecem três velhos pés: Um é de Jabuticaba, outros dois de gente.
Um galho de Flamboyant, na altura do sexto andar, pede água à moça na janela. A moça não ouve, ocupada com o vidro, mãos de flanela.
Como um Flamboyant de Madagascar veio parar em Moema? E por que essa árvore fica tão seca no Inverno? Não pergunte à moça da janela. Ela também é seca e não espera flores como um pé de Ipê.
Agora, um conselho: Quando a alma doer um pouco, pegue uma tarde ou uma manhã da Tuim.
Existe muito amor a caminhar pelas calçadas. Mas, é bom lembrar: só pega o amor quem tem amor pra dar.
(miguel arcanjo terra)

RUA LAVANDISCA

Essa rua virava lama nas chuvas de Verão.
Numa dessas tardes em que a soma de tudo dá como resultado um dia perdido, ele tirou as galochas, os sapatos, bateu barro no tanque e gritou em fúria:
--- Prefeito de merda!!!
Só mesmo fora de si falava uma coisa dessas. E fora de si invocou todos os espíritos com que lidava no seu fundo de quintal. Serviu uísque e bebeu com eles. Dançou na lama e bêbado foi dormir. Nem ocupou seu lugar na hora do jantar. Mas, lavou os pés.
Logo na manhã seguinte, centenas de passarinhos ocuparam a rua. Vieram pelo chamado daqueles espíritos do fundo de quintal.
Já chegaram batendo asas nas poças d’água. Batiam e espalhavam longe. Com seus pés e caudas, também amassavam a lama, espremiam, até que a terra finalmente secou.
O velhinho que contou a história disse que os passarinhos desapareceram de Moema faz muito tempo.
O velhinho está agora nos seus quatro anos de idade. Mas, aparenta muito mais.
Não dança mais nem chama seus espíritos de fundo de quintal, mas está morrendo de saudade. Coisas da idade.
O passarinho mede uns vinte centímetros de comprimento, falou.
Deve haver uns três centímetros de aumento. Mas, o velhinho não mente, o problema é da lente.
O passarinho tem cauda longa. A cabeça e a garganta são negras. A barriga e as faces brancas. Seu nome é Alvéloa, mas também atende pelo apelido de Lavandisca ou Lavandeira.
Se alguém encontrar, ligue para o velhinho.
Qual o telefone, qual o seu nome?
Esse é o problema: ele esqueceu todas as coisas que não sejam passarinho.
Velhinho que sobra é um sobrado.
E sobrado em Moema vira pó.
Na Lavandisca já caíram tantos.
E quando a casa cai, nem sempre há verba e frescura suficientes para cerveja importada ou uma feijoada light.
Aconselhável é comer Escondidinho na esquina. Mandioca e carne seca custam menos e rendem mais.
Desaconselhável é a auto-piedade pela falta de inteligência. Afinal, também falta inteligência no semáforo de pedestres da esquina com a Diogo Jácome.
A realidade do tempo virtual nem sempre combina com a do tempo real.
Tempo virtual é o que pode vir a ser. É o novo tempo de Moema.
As árvores continuam na real, mas elas são invisíveis num mundo virtual e o vir a ser passa por elas ligado num celular, indiferente.
Nas mesas dos bares, choperias e restaurantes da Lavandisca nem adianta beber para voltar ao tempo real. Conversas e olhares virtuais deixam patéticos os velhos garçons que ainda não são magnéticos.
Num mundo onde as pessoas vivem a sós com seus celulares de que servem cadeiras nas calçadas, se ninguém vai perceber a solidão menina de rua passar?
E as mãos negras e mendigas daquela mulher não encontram outras mãos, só as de si mesma, numa súplica. No tempo virtual são raros os momentos em que se pode juntar as mãos num Obrigado, meu Deus, ou num Deus lhe Pague.
A esperança na Lavandisca é ser Zen num restaurante japonês.
Jamais passe onde Deus não está. Mas, onde Ele está, passe depressa.
Ou questionar, só para chatear, não um Koan do Zen, mas o tamanho do colarinho do chope na mais antiga e correta casa de São Paulo. Espuma com menos de três centímetros, amarga o chope. E se for mais, amarga a conta.
Por falar em chope, na Lavandisca havia um pé de Dama da Noite.
Só os bêbados de passagem sentiram seu perfume em tempo real.
Desculpem os ais, mas hoje é enjoativo o cheiro das damas da noite virtuais.
Dá até medo de sonhar, porque vai tocar o celular.
Pobres valets que lidam com tickets e tiques nervosos. Eles são de outro mundo, o subsolo ou a parte do fundo, e formam com lavadores de pratos, faxineiros e entregadores de pizza o universo paralelo da Lavandisca, onde o tempo é real.
Em dois ou três botecos espremidos entre prédios e restaurantes de luxo, eles brindam depois do trabalho a volta à bucólica condição humana de procurar quebrar o gelo com um gole de cachaça. E dividir com dois ou três a conta da cerveja. Então, riem debochados dos homens tigres que passam.
Um tigre, dois tigres, três tigres.
--- Repita depressa, brincam entre eles.
--- Um tigre, dois tigres, três tigres.
Pobre, quando falta dinheiro, vira bicho.
Os bravos vão para a cadeia. Aqueles três tigres eram mansos e vinham de uma promoção de rua de uma academia de ginástica.
Mesmo sob peles encardidas de tigres de mentira, até os feios e pobres são bonitos em Moema. Dá para ver por fora.
Por dentro, sinceramente, quem é que ama o feio e bonito lhe parece?
E quem é que batalharia amorosamente para que em cada varanda dos prédios da Lavandisca plantassem uma rosa?
Qual o passante que perderia seu tempo a contar: Uma rosa é uma rosa, é uma rosa?
Existe muita pressa no tempo virtual para uma coisa dessas.
Essa pressa de andar e chegar, de ver e comprar. O tempo virtual que nos consome é o mesmo de nossa ânsia de consumo.
Mas, ainda existe um restinho de tempo real para se aproveitar na Lavandisca. Com ou sem colarinho.
Depois do sexto caneco, faça um favor a um velhinho: pergunte na mesa ao lado se alguém, por acaso, viu um passarinho de uns vinte centímetros de comprimento, que atende pelo apelido de Lavandisca ou Lavandeira.
Se fizerem gracinha, não leve a mal. Lembre-se de que você estará bêbado, também.
(miguel arcanjo terra)

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