RUA BEM-TE-VI

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Cuidado que o Bem-Te-Vi te vê

segunda-feira, 19 de abril de 2010

RUA PINTASSILGO

Entre duas e quatro horas da tarde, abre-se no mundo um oco profundo.
O pensamento fica bobo e vagabundo.
E nossas almas despencam no abismo.
Fazer o que nessa hora se até o Sol parece sem tino, destino, parado em si?
Então, na palma da mão pousou um Pintassilgo.
Não cantou. Era uma sombra. Bateu asas e voou.
Pintassilgo parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar.
Que horas são?
O mundo da rua Pintassilgo muda de meia em meia hora.
Só antes das duas e depois das quatro é que ele muda. O corte de cabelo, também.
Mas, dos Hair-Centers os cabelos não saem a voar ao vento como antigamente.
As mulheres que voam na Pintassilgo agora são bem poucas e se escondem das outras, usam toucas, Mona Lisas evasivas.
E quem pensa que beleza não dói nunca fez depilação.
Pelo.
Um pelo outro.
Pelos.
Por que tê-los?
O pelo é um chato, o grande pentelho na vaidade da mulher.
E ai do aventureiro que se atrever a brincar de tirar um só, num bem-me-quer, mal-me-quer.
Pela beleza da mulher tantas coisas foram pinçadas da Pintassilgo.
Com quantas butiques o que é chique se multiplica?
Pelo pouco que sobra agora, é fácil imaginar quanta coisa foi embora.
Que horas são?
Alguns sobradinhos geminados, fora do tempo, ainda lembram manhãs da Pintassilgo, serenas manhãs, quando o pão e o leite eram deixados no portão e não passava ladrão.
O Cofee Break virou a mesa.
Dos Jardins Suspensos da Babilônia descem para grandes e sofisticados espaços os conquistadores de uma nova era. E não importa se for apenas quimera.
Ninguém ousa pedir o bucólico pão com manteiga ou o inocente café com leite de todas as manhãs. É coisa da plebe e a plebe é brega, pensam os que não têm mais olhos pra ver.
Mas, a vida é cheia de ironia. E a rainha da mesa, quem diria, é a melancia, uma das raras coisas de que os pobres pegam uma fatia.
Os entregadores de água passam em suas bicicletas, com boca de café requentado e a plena consciência de que na lei do equilíbrio o peso maior pende para o lado mais fraco. E vão em frente a pagar o pato.
Também paga o pato a dona daquela pequena oficina de costura, que pode fechar a qualquer momento.
---Rico não tem remendo, lamenta.
O segredo é ser indiferente para nada doer na gente. Esse o conselho de um sapateiro, que ouviu do pai que na vida tudo tem conserto.
Se remorso já temos tanto, que tal um doce de confeitaria sem nenhum sentimento de culpa?
Que horas são?
É gostoso, às vezes, perder docemente a força de vontade.
O que seria de Deus sem nossos pequenos pecados?
Sem nenhum sentimento de culpa, que Divindade os homens buscariam? Ainda estariam cavalgando a própria sombra numa caverna grega. E quem sabe seriam mal humorados e insuportáveis pelo ascetismo, que rima com cinismo.
Verduras, frutas, legumes, cereais.
Anjos e passarinhos adoram.
Só três e meia ainda?
O problema é que o diabo sempre aparece nessa hora.
Às vezes, com uma taça de sorvete.
Se cair em tentação, faça como Freud: ponha a culpa na mãe.
Quem adoçou nosso leite e nos deu o prazer da mamadeira?
Quem nos seduziu com bombons, guaraná e coca-cola para ir ao cinema com papai?
Quem sempre compensou com um pedaço de bolo os seus beliscões?
Quem nos deu a chupeta, que é a desculpa freudiana do nosso cigarro?
Esqueça o regime ou a análise e peça um brigadeiro.
Lembre-se de que médicos e analistas que proíbem o doce talvez, deitados no sofá, abracem ursinhos de pelúcia para compensar uma eventual falta de carinho.
Agora, um segredo, para ninguém espalhar. Existe nos arredores da Pintassilgo um advogado que tira cópias de chave apenas para deixar a impressão de que existe mais alguém em sua vida. O chaveiro apenas faz as chaves, porque nada entende de carências.
Ah, esse oco profundo entre as duas e quatro horas da tarde, quando nossas almas caem no limbo e o pensamento fica bobo e vagabundo.
E por que aparecem nesse horário Chico Buarque, Vinicius e Garoto?
Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com que contar
São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda flores tristes e baldias
Com a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio peço a Deus por minha gente
É gente humilde que vontade de chorar
É certo que entre duas e quatro horas da tarde de dias incertos, a gente se sente como aquele pé de manga na calçada da rua Pintassilgo. Solitário e fora de lugar. Então, é bom acender um incenso para a deusa Kuanin, a que ouve os prantos do mundo, e cantar, com um pouco de mansa loucura:
Sem medo da vida
Sem medo da morte
Sigo meu destino
Pego minha sorte
E sei que a dor
É a parceira do amor.
Que horas são?
Quatro horas.
Graças a Deus.
(miguel arcanjo terra)

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